Cristian chega à mansão com passo firme e determinado. Ele sobe os degraus e toca a campainha com força. A porta se abre. Miguel surge do outro lado.
Os dois se encaram. Um silêncio pesado paira no ar.
CRISTIAN: A gente precisa conversar.
Miguel desvia o olhar por um segundo, compreendendo.
MIGUEL: A Clara te contou.
Cristian não nega. Sua postura é rígida.
CRISTIAN: Foi você?
A pergunta corta o ar. Direta. Sem espaço para fugas. Miguel baixa os olhos, a culpa evidente.
MIGUEL: Eu… não sabia que era ela…
Cristian dá um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Miguel.
CRISTIAN: Mas foi você. (Silêncio) foi você que destruiu tudo.
A voz de Cristian começa a falhar, carregada de uma mistura profunda de raiva e dor.
MIGUEL: Eu tô pagando por isso todos os dias.
CRISTIAN (Explodindo): NÃO TÁ! Quem tá pagando sou eu! Eu perdi tudo!
Miguel segura a própria dor, contido.
MIGUEL: E eu vou assumir—
CRISTIAN: Vai?
Silêncio tenso.
CRISTIAN: Ou seu pai vai te impedir?
A frase atinge o alvo com precisão, acertando fundo. Miguel trava, sem reação. Cristian recua, dando as costas.
CRISTIAN: Se você não fizer isso… Eu faço.
Cristian vai embora, deixando Miguel sozinho na entrada com a decisão mais difícil de sua vida.
CENA 02-EXT/JARDIM-DIA SEGUINTE
Clara está no jardim. Miguel se aproxima cauteloso.
MIGUEL: Clara…
Ela se afasta no mesmo instante, o corpo rígido.
CLARA: Não chega perto de mim.
A voz dela treme, mas mantém-se firme.
MIGUEL: Eu não sabia…
CLARA (Gritando, com lágrimas nos olhos): MAS FOI VOCÊ! Foi você que tirou ela de mim!
Silêncio sufocante. Miguel tenta se redimir.
MIGUEL: Eu posso consertar—
CLARA (Recuando ainda mais): NÃO! Você acabou com tudo!
Os olhos dela transbordam de dor e uma desilusão irrevogável.
CLARA: Eu confiei em você… E você mentiu.
Miguel abre a boca, mas não tem resposta.
CLARA: Vai embora. E nunca mais volta.
Dessa vez, o tom não deixa dúvidas: é definitivo.
CENA 03-INT/ESCRITÓRIO-NOITE
Letícia está sozinha,imersa em pensamentos. Na sua mente, Cristian e Marcelo se alternam. Dor, cuidado e conflito formam um nó em sua cabeça. O celular vibra sobre a mesa. Na tela, a mensagem de Marcelo: "Penso em você."
Letícia fecha os olhos,exausta e confusa.
Segundos depois,o celular vibra novamente. Mensagem de Cristian: "Preciso de você." Ela segura o aparelho entre as mãos, dividida entre dois caminhos, sem saber qual direção seguir.
CENA 04-INT/CASA DE BERNARDO- NOITE
O clima na casa está pesado. Bernardo continua fragilizado,mas agora plenamente consciente de seus atos.
Karina se aproxima dele com suavidade.
KARINA: Você não tá bem.
BERNARDO: Nunca estive.
Eles se olham. A proximidade entre os dois é palpável, carregada de uma tensão perigosa.
BERNARDO: Você me entende…
Karina ergue a mão e segura o rosto dele com delicadeza.
KARINA: Mais do que você imagina.
Silêncio. E então, eles se beijam. É um beijo intenso, errado em tantos níveis, mas totalmente inevitável. Um envolvimento nasce, fundado sobre as bases da dor e da destruição.
Do lado de fora, Fernanda chega à propriedade. Ela olha através da janela e vê a cena na sala. Ela congela.
FERNANDA: Não…
A fúria sobe pelo seu corpo, substituindo o choque.
FERNANDA: Ele tá com ela… Isso não vai ficar assim.
CENA 05-INT/CASA DE BERNARDO- MAIS TARDE
Bernardo está ao telefone,conversan- do em tom baixo com alguém.
BERNARDO: Ela viu o carro…
Ele silencia por um instante, o olhar escurecendo perfeitamente.
BERNARDO: Então ela sabe.
Sua respiração se torna pesada.
BERNARDO: Isso é um problema.
Um plano sombrio começa a nascer em sua mente.
Silêncio absoluto. Clara está sozinha no quintal,pensativa e visivelmente fragilizada. Passos se aproximam. Bernardo surge das sombras.
BERNARDO: Clara…
Ela se vira rapidamente, sobressaltada.
CLARA: O que você quer?
Bernardo abre um sorriso falso.
BERNARDO: Conversar.
Clara recua, desconfiada.
CLARA: Vai embora.
Ele avança um passo.
BERNARDO: Você viu o carro, né?
O silêncio pesa como chumbo. Clara trava.
CLARA: Eu sabia…
Antes que ela possa reagir, Bernardo avança e segura firmemente o braço dela.
CLARA: Me solta!
BERNARDO (Descontrolado): Você vai estragar tudo!
Clara tenta se desvencilhar com todas as forças.
CLARA: SOCORRO!
Com um empurrão brutal, Bernardo a joga com força.
O corpo de Clara despenca na água da piscina. O impacto ecoa. Na água, ela se debate desesperadamente, sem conseguir encontrar apoio para subir.
CLARA (Gritando, engolindo água): ME AJUDA!
Na borda, Bernardo observa a cena com frieza absoluta.
BERNARDO: Era melhor você não saber…
Clara afunda, volta à superfície lutando contra a exaustão, mas a força a abandona rapidamente.
CENA 06-PISCINA/CASA DE KARINA- NOITE
A água fria e escura engole tudo. Clara debate-se com desespero, os braços fustigando a superfície em busca de ar, mas a fraqueza pesa como chumbo. Na borda, Bernardo observa a cena de cima. Inerte. Frio. Sem mover um único dedo para salvá-la. O reflexo da lua corta a água enquanto ela afunda mais uma vez.
Clara consegue romper a superfície por um segundo, engolindo ar e tossindo, com os olhos arregalados de terror ao encarar a silhueta dele.
CLARA (com a voz cortada pela água, fraca): Socorro... Bernardo... me ajuda! Por favor...!
Bernardo inclina levemente o tronco para a frente, apoiando as mãos nos joelhos, com um sorriso frio e cínico desenhado nos lábios.
BERNARDO (tom calmo, cortante): Foi você que cavou a própria cova, Clara. Quem mandou enfiar o nariz onde não foi chamada?
CLARA (desesperada, afundando de novo): Não... eu juro... eu não vou...
A água cobre a cabeça dela novamen- te. Ela agita os braços embaixo d'água, lutando contra a correnteza artificial e o próprio cansaço, enquanto as bolhas de ar sobem à superfície.
Bernardo apenas endireita o corpo, ajeita a gola da camisa e dá dois passos para trás, virando as costas sem demonstrar um pingo de remorso.
BERNARDO (em um sussurro gelado para si mesmo): Alguns segredos simplesmente não podem ver a luz do dia.
Ele se afasta lentamente,deixando que o silêncio da noite engula os gritos abafados que vêm lá de dentro da piscina.
CENA 07-RUAS DA CIDADE-NOITE
Cristian caminha a passos largos pela calçada escura, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, ainda fervendo de raiva após a discussão. De repente, ele trava o passo. A respiração acelera sem motivo aparente. Uma fisgada aguda de pânico atravessa seu peito, tirando-lhe o ar por um segundo. Ele olha fixamente para o horizonte, com os olhos arregalados pela intuição súbita.
CRISTIAN (sussurrando, tomado por um calafrio): Não... Não pode ser...
Ele aperta as mãos com força, sentin- do com a precisão de um soco no estômago que algo terrível está acontecendo agora mesmo.
CRISTIAN (em voz alta, desesperado): Clara...!
Sem pensar duas vezes, ele dá meia- volta e dispara a correr na direção oposta,consumido pelo pior pressen- timento de sua vida.
CENA 08-ESCRITÓRIO DE LETÍCIA- NOITE
Luz fraca. Letícia permanece estag- nada diante da mesa de trabalho, iluminada apenas pelo brilho frio da tela. O celular vibra em sua mão, trazendo notificações de dois mundos completamente diferentes e inconcili- áveis. Dividida entre a razão e o caos, ela trava, incapaz de dar um passo sequer.
Ela olha para a primeira mensagem, enviada por Marcelo.
LETÍCIA (lendo em voz alta, a voz um sussurro frágil): "Penso em você..."
Um suspiro pesado escapa de seus lábios, carregado de culpa e afeto contido. Mas, logo em seguida, o aparelho vibra de novo. Ela desliza o olhar para a segunda mensagem, enviada por Cristian.
LETÍCIA (com o cenho franzido, sentin- do o peso do nome): "Preciso de você..."
Ela aperta o celular com força entre os dedos, as lágrimas ameaçando cair enquanto o silêncio do escritório parece sufocá-la.
LETÍCIA (para si mesma,desesperada): O que eu faço...? Qual dos dois lados vai me destruir primeiro?
Entre dois caminhos perigosos, ela continua imóvel, sem saber qual direção seguir antes que seja tarde demais.
CENA 09-APARTAMENTO DE MIGUEL-NOITE
Miguel anda de um lado para o outro no quarto escuro, as mãos na cabeça, tomado por um desespero cego e sufocante. Ele não tem a menor noção do perigo iminente que ronda Clara, totalmente preso à culpa que esmaga o seu peito.
MIGUEL (andando em círculos, a voz alterada): Droga... Droga, eu fui um idiota! Como é que eu pude deixar as coisas chegarem a esse ponto?
Ele para diante da janela, fitando o reflexo do próprio rosto no vidro, transtornado pela própria fraqueza.
MIGUEL (sussurrando, com os olhos marejados): A culpa é minha... Eu destruí tudo. Se ela soubesse o quanto eu queria consertar...
Ele desfere um soco leve na parede, respirando fundo de forma irregular, sem saber que a gravidade do que ele esconde já se transformou em uma corrida contra a morte lá fora.
MIGUEL (para si mesmo): Eu preciso dar um jeito nisso... Amanhã mesmo eu acabo com essa mentira. Amanhã...
CENA 10-PISCINA/CASA DE KARINA- NOITE
O relógio invisível parece correr mais rápido. O oxigênio vai se esgotando no peito de Clara. Debaixo d'água, ela agita os braços com o que lhe resta de força para emergir, mas a água fria pesa como chumbo, puxando-a para o fundo.
CLARA (pensamento/ecoando em desespero): Não... eu não posso morrer aqui... eu preciso sair...
Ela tenta dar uma última braçada, mas a visão começa a escurecer. Seus dedos arranham a parede da piscina em vão.
Bar charmoso e movimentado. Sofia e Bernardo dividem uma mesa com Erom. Bebem e conversam descontraídos.
EROM: Mas o Bernardo não mudou nada. Na faculdade,sempre foi assim. Podia estar com o mundo caindo na cabeça,mas aparecia de camisa passada e fingindo que estava tudo ótimo.
BERNARDO: Não começa.
SOFIA: Agora eu quero saber.
EROM: Teve uma época que ele quase trancou o curso.
SOFIA (Surpresa): Você nunca me contou.
BERNARDO (Bebe um gole): Porque não tem nada de interessante,o Erom que fala demais quando bebe.
Bernardo fuzila Erom com os olhos. Ele levanta a mão,rindo,meio alcoolizado.
EROM: Pra ele não tem nada interessante,mas pra dona Carmem, que fez milagre pra pagar mensalidade,talvez tenha. (Levantando) Licença,falei demais.
Clima pesado. Sofia encara Bernardo.
SOFIA: Bernardo,você sempre fala da sua família como se... Sei lá. Como se esse assunto tivesse uma porta que eu não posso abrir.
BERNARDO: Minha família não é rica, Sofia.
SOFIA: E você acha que eu pensei que fosse?
BERNARDO: Talvez não tenha dimensão. Minha mãe criou eu e minha irmã praticamente sozinha. Tudo foi muito apertado. Eu estudei com bolsa, ela completava o que faltava... teve mês complicado.
Sofia faz carinho em seu rosto.
SOFIA: E por que você fala disso como se estivesse confessando alguma coisa? Eu quero conhecer sua mãe.
BERNARDO: Sofia..
SOFIA: E sua irmã. Quero conhecer sua casa,saber onde você cresceu. Você já conhece tudo da minha vida.
BERNARDO: Você vai conhecer. Só que ainda não é a hora.
SOFIA: Estamos juntos há meses. Qual seria a hora certa? Estou tentando entender por que você me mantém longe de uma parte inteira da sua vida.
Bernardo baixa os olhos.
BERNARDO: Só me dá um pouco mais de tempo.
Sofia fica claramente chateada,mas não quer transformar a noite em discussão. Acaricia seu rosto.
SOFIA: Eu te dou tempo. Só não quero que você ache que precisa esconder alguma coisa de mim. Eu não me apaixonei pela sua conta bancária, Bernardo.
BERNARDO (Sorri): Ainda bem.
SOFIA: Até porque eu nem sei quanto você tem.
Riem. Sofia o beija com carinho,ele corresponde. Ao abraçá-la,seu semblante fica preocupado.
CENA 08-CASA DE GUSTAVO/SALA/ INT-NOITE
GUSTAVO (Nando Cunha) assiste à um jogo de futebol na televisão. Tico termina de comer alguma coisa na mesa,quando CADÚ (Isaac Lopes) atravessa a sala já arrumado para sair. Gustavo olha o filho.
GUSTAVO: Aonde você vai essa hora?
CADÚ: Cantar.
GUSTAVO: Cantar onde?
CADÚ: Num bar,pai. Um amigo conseguiu um espaço pra mim. Duas músicas hoje. Se gostarem,talvez me chamem de novo.
TICO (Animado): Sério? Porque não avisou? Eu ia querer te assistir.
CADÚ (Olhando o pai): Queria evitar interrogatório.
GUSTAVO: Interrogatório nada. Só não entendo isso. Você tem trabalho comigo no mercado,tem seu dinheiro garantido e fica inventando moda.
CADÚ (Desconfortável): Pai,eu gosto da barraca. Mas não quero passar o resto da minha vida vendendo queijo.
GUSTAVO: E cantar em boteco agora é profissão? Isso é fantasia,Cadú!
CADÚ: É meu sonho.
Gustavo olha novamente para a roupa do filho.
GUSTAVO (Insinuando): E que tipo de lugar é esse?
CADÚ (Evitando): Um lugar onde tem música.
TICO (Interfere): Pai,deixa o Cadú! Tá procurando problema onde não tem.
Gustavo levanta, irritado.
GUSTAVO: Eu conheço essas histórias de artista,cantor,gente da noite... Eu só não quero filho meu virando fruta por aí.
Cadú sente profundamente. Tico se aproxima do irmão, nervoso.
TICO: Olha o jeito que você fala com ele. Tá falando besteira! O quer cantar. Qual é o problema? Se der certo, ótimo. Se der errado,ele tenta outra coisa. A vida é dele.
GUSTAVO: Enquanto morar debaixo do meu teto/
CADÚ: Eu trabalho,pai. Pago minhas coisas. Ajudo dentro de casa e na sua barraca todo santo dia. Só queria que, pelo menos aqui dentro,eu não precisasse ficar medindo cada coisa que faço pra você não achar alguma coisa errada em mim.
GUSTAVO: Eu só quero o melhor pra vocês.
CADÚ: Então algum dia pergunta o que é melhor pra mim.
Cadu sai,nervoso. Tico encara o pai, decepcionado.
TICO: Pegou pesado.
Gustavo não responde, pensativo.
CENA 09-MERCADO MUNICIPAL/ FUTURO RESTAURANTE/INT-MANHÃ
O dia já amanheceu. As bancas do mercado Municipal já em pleno funcionamento. Lalá atravessa o mercadão,entra no local do futuro restaurante,conferindo uma lista enquanto um funcionário termina de pintar uma parede. Ela se abaixa para pegar uma caixa.
VOZ (OFF): Entrega para Dona da Feira.
Lalá reconhece a voz. Se vira e vê Gael,parado na entrada,sorridente, segurando um grande embrulho.
LALÁ: Você?! Não acredito.
GAEL: Bom dia pra você também, esquentadinha.
LALÁ: O que você tá fazendo aqui?
GAEL: Tentando evitar um processo por destruição de patrimônio.
Ele entra e apoia cuidadosamente o embrulho sobre uma bancada.
LALÁ: Eu já falei que não quero seu dinheiro.
GAEL: Ótimo. Porque eu não trouxe dinheiro.
Gael retira o embrulho. Lalá se surpreende ao ver o novo letreiro: “DONA DA FEIRA”,reproduzido praticamente igual ao que foi quebrado. Por alguns segundos,perde a pose.
LALÁ: Como você conseguiu isso,em tão pouco tempo?
GAEL: Tinha o nome do fabricante num pedaço do outro. Liguei,mandei uma foto e pedi outro igual. Eu quebrei. Achei justo consertar.
LALÁ: Você não quebrou. Eu derrubei porque você quase me atropelou.
GAEL: Então estamos progredindo. Ontem eu era um assassino. Hoje sou só responsável indireto.
Lalá acha graça. Gael olha o entorno.
GAEL: Então é aqui o futuro Dona da Feira?
LALÁ (Orgulhosa): Vai ser. (Mostra o espaço) Comida brasileira, ingredientes daqui do mercado, fornecedores daqui... mas sem aquela coisa de fazer comida popular parecer menor porque não vem numa louça de cinquenta anos.
GAEL (Sorri): Você gosta mesmo disso. Seu olhar brilhou falando disso tudo.
Lalá sorri. Se olham intensamente,há uma clara atração.
TICO (OFF): Licença?
Lalá desvia o olhar. Tico entra carregando uma caixa de ferramentas, olho fixo em Gael.
TICO: Quem é ele, Lalá?
Lalá encara Tico e depois Gael. Tico e Gael se encarando.
CENA 10-MERCADO MUNICIPAL/INT- MANHÃ
Mercado Municipal está lotado. Beatriz e Cecília caminham pelos corredores, impecavelmente vestidas e completamente deslocadas em meio ao movimento de fregueses e comerciantes. Cecília observa tudo com curiosidade.
CECÍLIA: Confesso que esperava coisa pior.
BEATRIZ: Nós acabamos de entrar.
Um carregador passa depressa com um carrinho,quase atropelando. Cecília dá um gritinho histérico. As duas precisam se espremer para dar passagem.
CECÍLIA: Retiro o que disse. Ainda dá tempo de irmos embora. Isso aqui é uma selva!
BEATRIZ: Pare de exagerar! Eu não atravessei a cidade para desistir agora.
Mais à frente,ela avista a barraca de frutas de Carmem.
CECÍLIA: É ela?!
Beatriz confirma com a cabeça. As duas se aproximam. Carmem termina de entregar uma sacola e percebe as mulheres diante da banca.
CARMEM (Sorridente): Bom dia, madames. O que vai ser?
Reconhece Beatriz. Seu sorriso desaparecendo.
CARMEM: A senhora?
BEATRIZ (Retirando os óculos escuros): A senhora lembra de mim.
CARMEM: Tenho memória boa.
BEATRIZ: Naquela noite nós não fomos devidamente apresentadas.
Beatriz lança um rápido olhar para as caixas de frutas,para o avental de Carmem,para a simplicidade da barraca. Depois volta a encará-la.
BEATRIZ (Oferece a mão em cumprimento): Beatriz Aranha Alencar. Mãe da Sofia.
CARMEM (Congela): Sofia?
BEATRIZ: A namorada do seu filho.
Carmem absorvendo a informação. Olha Cecília,que a encara com um falso sorriso. Depois encara Beatriz.
CARMEM: Então,a senhora é...
BEATRIZ (Força um sorriso): A sogra de Bernardo.
Carmem engole seco. Closes alternados. Por fim,em Beatriz.
EFEITO FINAL: Frutas variadas caem sobre a imagem,a cobrindo por completo. Uma porta metálica desce, encerrando o capítulo.
CENA 01-MANSÃO ARANHA ALENCAR /ESCRITÓRIO/INT-FIM DE TARDE
Beatriz reage diante do plano de André.
BEATRIZ: Eu não quero aquele rapaz cada vez mais próximo da minha família. Prefiro cortar o mal pela raiz. Deixar esse filho da feirante bem longe da porta dessa casa.
André contorna a mesa e se aproxima da esposa, toca em seus braços com delicadeza.
ANDRÉ: Você já foi mais esperta que isso,meu amor. Pensa comigo: Justamente por esse rapaz ser um Zé ninguém, que fica muito mais fácil usar para escaparmos dessa auditoria do imbecil do Heitor.
BEATRIZ (Desvia): Usá-lo, não abrir as portas da empresa, colocar ele ao seu lado e casar ele com a nossa única filha,André. Existem dezenas de pessoas naquela empresa que poderiam servir aos seus planos.
ANDRÉ: Mas nenhuma namora minha filha.
BEATRIZ: Exatamente! Quanto mais você aproximar esse rapaz, mais Sofia se agarra à ele. Hoje ela já fala daquilo como se fosse o grande amor da vida dela.
ANDRÉ: Melhor ainda. E você esqueça essa ideia de separar os dois. Se proibir, ela transforma Bernardo em um mártir. Quanto mais você atacar esse rapaz, mais ela vai defender ele. Vai dizer que somos preconceituosos, antiquados, que não aceitamos a origem dele...
BEATRIZ (Cruza os braços): E somos obrigados a fingir que aceitamos?
ANDRÉ: Por enquanto. Ele quer entrar no nosso mundo,quer sobrenome, prestígio,a carreira que acredita merecer. Nós vamos dar tudo isso à ele. E quando Heitor investigar... Vai encontrar um advogado ambicioso que se aproximou da filha do dono, para roubar livremente.
BEATRIZ: E Sofia vai acreditar nisso?
ANDRÉ: O amor resiste à muita coisa, menos à sensação de ter sido usada. Quando ela se sentir usada pelo Bernardo,nós não vamos precisar exigir que ela termine com ele. Ela mesma vai expulsar ele da vida dela.
BEATRIZ: E até lá?
André se aproxima,sorri,e toca em seu rosto.
ANDRÉ: Até lá, você será encantadora.
BEATRIZ: Está me pedindo demais.
ANDRÉ (Sorri): Pense que cada sorriso é um investimento.
André beija Beatriz e sai. Ela fica pensativa.
CENA 02-MERCADO MUNICIPAL/ FUTURO RESTAURANTE/INT-FIM DE TARDE
O espaço do futuro restaurante está tomado por caixas e materiais de obra. Lalá tenta organizar algumas louças, enquanto Tico em cima se uma escada,instala uma prateleira.
LALÁ: Mais pra esquerda, Tico.
TICO: Minha esquerda ou sua esquerda?
LALÁ (Ri): Desce daí antes que você caia ou quebre alguma coisa.
Lalá olha para um pedaço do letreiro quebrado por Gale encostado em um canto.
LALÁ: Falar em derrubar, você precisava ter visto o imbecil que me fez quebrar esse letreiro
TICO (Descendo): Que imbecil?
LALÁ: Um playboyzinho num conversível. Quase me atropelou na porta do mercado, freou em cima de mim. Eu derrubei tudo... Inclusive a placa do restaurante. (Frustrada) Três semanas esperando! Foi pro chão em três segundos.
TICO: Pegou a placa do carro pra cobrar dele depois?
LALÁ: Ele quis pagar. Mas óbvio que eu não aceitei.
TICO: Então você tá reclamando de quê?
Ela bate de leve no braço dele com o pedaço do letreiro.
LALÁ: Você tá do lado de quem?
TICO: Seu,claro. Só acho que podia ter deixado o sujeito parar o prejuízo.
LALÁ: Não depois daquele sorrisinho de quem acha que resolve tudo com dinheiro. Cara arrogante,metido, convencido... Mas vai,vamos trabalhar que essa inauguração não vai acontecer sozinha.
Tico pega uma caixa para levar para outro canto. Ela o para, encara.
LALÁ: Obrigada mesmo,Tico. Você é meu anjo da guarda aqui,tá me salvando.
TICO (Tímido): Para isso que serve um amigo.
Lalá se aproxima,e naturalmente, lhe dá um beijo no rosto.
LALÁ: Você é o melhor!
Ela se afasta e volta a mexer nas louças. Tico fica imóvel,leva discretamente a mão no rosto. Do corredor,Cadú chega trazendo produtos da barraca do pai e flagra a expressão do irmão.
CADÚ: Que cara é essa, mano?
TICO (Fechando o sorriso): Que cara?
Cadu olha para Lalá,depois para o irmão. Entende tudo. Ri.
CADÚ: Nenhuma. Caso grave,meu irmão. Gravíssimo!
Tico dá uma cotovelada discreta no irmão. Lalá continua trabalhando distraída. Tico a olhando,cada vez mais encantado.
O Sol desaparecendo aos poucos e a noite chegando,trazendo uma lua cheia,resplandecente sobre a cidade de São Paulo. Pontos conhecidos iluminados. Imagens da zona Norte da cidade. Fachada da casa de Carmem.
CENA 04-CASA DE CARMEM/COZINHA /INT-NOITE
Carmem prepara um café enquanto Nair, sentada à mesa,observa a amiga. Carmem acaba de contar sobre a discussão com Bernardo.
NAIR: Ele falou isso mesmo? Que tem vergonha da vida que levou?
Carmem mexe o café,evitando encará-la.
CARMEM: Disse que nunca quis aquela vida. Feira,caixa de fruta,acordar de madrugada... essas coisas.
NAIR (Indignada): “Essas coisas” pagaram a faculdade dele.
CARMEM: Eu falei.
NAIR: Pagaram escola,roupa,comida. Quantas vezes você trabalhou doente pra esse menino não perceber que tava faltando dinheiro? Eu vi,Carmem. Você se matou por esses dois.
Carmem coloca uma xícara diante da amiga.
CARMEM: E faria tudo de novo.
NAIR: Deixa o Bernardo quebrar a cara sozinho uma vez na vida. Para de correr atrás. Para de proteger. Ele quer tanto essa vida de gente rica? Deixa ele viver. Uma hora vai descobrir que sobrenome bonito não abraça ninguém quando a coisa aperta. Talvez só assim ele dê valor à mãe que tem.
CARMEM: Eu tô decepcionada com meu filho, Nair. Muito. Ouvir aquilo doeu mais do que qualquer coisa que já falaram de mim.
NAIR (Segura sua mão): Então deixa ele sentir sua falta.
CARMEM: Posso ficar com raiva. Posso brigar. Posso até passar uns dias sem olhar na cara dele,mas desistir do Bernardo? Nunca.
NAIR: Ele já é um homem.
CARMEM: Pra você. Pra mim, continua sendo meu filho. E se eu perceber que ele tá fazendo uma besteira,que alguém tá querendo passar a perna nele,que alguma coisa ruim pode acontecer... Eu vou estar lá. Porque filho quando acerta tem muita gente pra bater palma. É quando erra que precisa saber que ainda tem pra onde voltar.
Nair sorri, comovida.
NAIR: Você não tem jeito.
Nair ri. Carmem também esboça um sorriso,mas logo fica pensativa.
CENA 05-MANSÃO ARANHA ALENCAR /SALA DE JANTAR/INT-NOITE
O jantar impecavelmente servido. André e Beatriz recebem Cecília e Edgar,para jantar. Taças de vinho na mesa, risadas.
BEATRIZ: Eu ainda acho um absurdo vocês desistirem de Punta del Este no réveillon.
EDGAR: Ninguém desistiu... Ainda.
CECÍLIA: Praticamente. Quando você diz “vamos avaliar “,meus ouvidinhos escutam: “não temos dinheiro”.
BEATRIZ (Ri): Que horror!
ANDRÉ (Ri): Edgar,vem comigo escolher aquele conhaque que te falei.
Levantam e vão.
BEATRIZ: Você não faz ideia do que eu descobri.
CECÍLIA (Animada): Traição?
BEATRIZ: Pior.
CECÍLIA: Falência?
BEATRIZ: A família do Bernardo. Aquela mulher que apareceu aqui naquela noite era a mãe dele.
CECÍLIA (Olhos arregalados): A barraqueira?
BEATRIZ: Literalmente.
Beatriz pega o celular e mostra uma fotografia de Carmem atrás da banca.
BEATRIZ: Carmem Lacerda. Conhecida como “Dona da Feira”. Tem uma barraca de frutas no Mercado Municipal.
CECÍLIA (Desanimada): Então não existe importadora?
BEATRIZ: Nem distribuidora,nem empório, nem império gastronômico. A realidade é banana,mamão,melancia...
Cecília contém o riso.
BEATRIZ: E o pior: Bernardo teve coragem de fingir que a própria mãe era uma funcionária. Mas eu quero conhecer essa mulher de perto. No ambiente dela! Quero entender de onde esse rapaz saiu e o que Sofia está arranjando para a própria vida.
CECÍLIA (Surpresa): Você pretende ir ao Mercadão?
BEATRIZ: Talvez.
Cecília bebe o vinho.
CECÍLIA: Então eu vou com você. Se aquilo ficar perigoso,uma de nós chama a polícia.
BEATRIZ (Ri): Cecilia,você fala como se tivesse descoberto uma organização criminosa.
CECÍLIA: Praticamente. Mas é sério,se quiser,eu acompanho. (Rindo) Uma excursão ao povo.
Beatriz ri,achando graça. As duas brindam e bebem. Beatriz torna a olhar a foto de Carmem fixamente.
Ao cair da tarde, a antiga estação de trens jaz deserta e silenciosa. Kassandra aproxima-se com passos cautelosos, os sapatos ecoando nas tábuas gastas.
KASSANDRA: Há viv'alma por aqui? Quem me chamou?
Das sombras da plataforma, surge uma silhueta conhecida.
FILOMENA: Eu bem sabia que a curio- sidade a traria até aqui, menina.
Kassandra dá meia-volta, sobressaltada.
KASSANDRA: Foi a senhora quem me mandou este bilhete infame?
FILOMENA: Em pessoa.
KASSANDRA: Com que direito?! O que pretende de mim?
Pelas ruas poeirentas da vila, Catarina caminha cabisbaixa quando avista, com horror, mais um pretendente engomado aproximando-se da soleira de sua casa para cortejá-la.
CATARINA: Não... Outra vez não! Pelos santos do céu, é praga!
DURVAL (Do alpendre, cruzando os braços): Quem é o infeliz da vez que ousa profanar o meu umbral?
CATARINA: Pai, por piedade! Tenha compostura! O rapaz veio apenas fazer uma visita de cortesia!
DURVAL: Visita de cortesia?! Com intenções casamenteiras neste corpinho é que ele não entra!
CARMELITA (Saindo à porta com um pano de prato): Durval, meu marido, comporte-se como um cristão diante da visita!
DURVAL: Eu me comporto com a decência que os vagabundos merecem!
O pobre rapaz aproxima-se trêmulo, tirando o chapéu de palha.
RAPAZ: Meus cumprimentos, seu Durval... Eu venho respeitosamente pleitear a mão de sua digna filha, a senhorita Catarina...
Durval mede o infeliz de cima a baixo com um olhar fuzilante.
DURVAL: A resposta é um rotundo e sonoro NÃO! Fora daqui, abelhudo!
CATARINA: Pai, pelo amor de Deus, o senhor vai me matar de desgosto!
Durval, num ímpeto de fúria patriarcal, agarra o pretendente pelo colarinho e o empurra escada abaixo rumo à saída.
CATARINA: PAPAI, NÃO FAÇA ISSO!
Corta bruscamente para o curral e o chiqueiro nos fundos da casa. Um baque abafado ecoa na lama. O prete- ndente aterrissa de costas dentro do chiqueiro, sob os protestos enfureci- dos dos porcos.
Catarina enterra o rosto entre as mãos, gemendo de desespero.
CATARINA: Eu não acredito numa des- graça dessas! A minha vida sentimen- tal é um verdadeiro cemitério de esperanças!
Carmelita aproxima-se, suspirando fundo e abanando o avental.
CARMELITA: Paciência, minha filha... Quem sabe um dia seu pai toma juízo na moleira.
CATARINA: Espero sinceramente que seja antes de eu estampar os meus vinte anos encalhada neste cafundó!
CENA 01-MANSÃO/SALA DE ESTAR E QUARTO DE FELIPE-NOITE
A porta principal da mansão abre-se com um estrondo violento que ecoa pelo hall. Felipe entra a passos largos, o chapéu jogado de qualquer maneira sobre a poltrona, o terno amarrotado e a fisionomia retorcida por uma fúria cega. Seus pais, Dona Cecília e o Coronel Bernardo, que conversavam tranquilamente junto à lareira, sobressaltam-se com a barulheira e correm ao seu encontro.
CECÍLIA: Meu Deus do céu, Felipe! Que maneiras são essas? Chegar a esta hora estourando as portas como um desalmado... O que foi que aconteceu, meu filho?
BERNARDO: Contenha esse ímpeto, rapaz! Fale com decência à sua mãe! O que significa essa cara de quem vai chutar o mundo?
Felipe estanca no meio da sala, fuzilando os pais com o olhar, o peito arfando de puro ódio contido.
FELIPE (Com voz áspera e cortante): Não venham com perguntas tolas! Não me aborreçam mais do que já estou!
CECÍLIA (Aproximando-se, aflita): Mas sou sua mãe, Felipe! Viemos apenas...
FELIPE (Gritando, perdendo o resto de paciência): Pois fiquem no seu canto! Não quero palpite, não quero conselho e, acima de tudo, não quero que me venham com piedade barata! Cuidem da vossa vida e deixem-me em paz!
BERNARDO (Dando um passo à frente, indignado): Ora, seu insolente! Esqueceu-se debaixo de qual teto está pisando e a quem deve respeito?! Não admito que...
Felipe vira-lhes as costas de forma animalesca, sem sequer deixar o pai terminar a frase, e dispara escada acima pisando duro nos degraus de madeira.
CECÍLIA (Com os olhos marejados, levando as mãos ao peito): Santo Deus... Onde foi que erramos na criação deste rapaz? Ele está possuído pelo demônio!
Corta bruscamente para o interior do quarto de Felipe. Felipe entra batendo a porta com força monumental, tran- cando-a em seguida com uma volta seca na chave. Ele caminha direto até a escrivaninha, arranca o paletó e o joga no chão, fitando o próprio reflexo no espelho escuro do armário. O rosto está desfigurado pelo rancor.
FELIPE (Entre dentes,com um ódio que transborda): Aquele maldito atorzinho de meia-pataca... Aquele farsante de quinta categoria...
Ele aperta os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficam brancos. Respira fundo, a fúria dando lugar a uma determinação fria e doentia.
FELIPE: Pensou que podia me humilhar em praça pública, debaixo do nariz de todo mundo? Vai pagar caro... Vai ter exatamente o que merece, da pior maneira possível.
Felipe caminha lentamente até a jane- la, abrindo as persianas para encarar a noite escura lá fora, enquanto estampa um sorriso torcido e possessivo.
FELIPE: E quanto àquela caboclinha ingrata... Pode espernear o quanto quiser. Rosinha vai ser minha... Única e exclusivamente minha. E de mais ninguém neste mundo.
CORTE SECO.
CENA 02-CATIVEIRO-NOITE
A porta abre-se lentamente. Francisco, sentado no canto do cômodo, ergue os olhos. Uma figura entra. A luz do corredor ilumina apenas parte do rosto.
FRANCISCO: Quem está aí?
A pessoa fecha a porta. Francisco levanta-se com esforço.
FRANCISCO: Romeu?
Silêncio. A figura dá mais alguns passos. É Filomena. Francisco recua.
FRANCISCO: Vossa Senhoria... Quer dizer, você.
Filomena coloca uma vela sobre uma pequena mesa. A chama ilumina seu rosto.
FILOMENA: Boa noite, seu Francisco.
FRANCISCO: O que pretende com esta infâmia?
FILOMENA: Apenas conversar, meu caro.
FRANCISCO: Depois de me manter encarcerado nesta pocilga?
FILOMENA: Eu não chamaria de cárcere...
Ela olha ao redor, com um sorriso irônico.
FILOMENA: Eu diria... um retiro de proteção.
Francisco ri, incrédulo.
FRANCISCO: Perdeu o juízo por completo!
Filomena aproxima-se lentamente, fitando-o nos olhos.
FILOMENA: Sabe qual é a virtude mais fascinante do medo, seu Francisco?
Francisco permanece em silêncio, cerrando os punhos.
FILOMENA: É que ele obriga o homem a confessar aquilo que jamais diria em circunstâncias normais.
Ela estende a vela diante dele.
FILOMENA: E eu preciso que me diga apenas uma verdade.
FRANCISCO: Qual?
FILOMENA: Que a menina Rosinha não é sua filha de sangue.
O sorriso de Filomena desaparece instantaneamente.
FILOMENA: Pense com mais carinho. A noite é longa.
FRANCISCO: Passei anos da minha vida resguardando aquela criatura inocente. Não hei de abandoná-la agora.
Filomena apaga a chama da vela com os dedos protegidos pelo tecido do vestido. O quarto mergulha em densa escuridão.
FILOMENA: Sendo assim, teremos de aguardar.
Ela retira-se. A pesada porta fecha-se com um baque seco. Francisco permanece sozinho na penumbra. Do lado de fora, Filomena detém-se imóvel no corredor.
FILOMENA: Vejamos agora quem há de ceder primeiro.
Instrumental off.
No dia seguinte....
CENA 03-MANSÃO/ESCRITÓRIO- MANHÃ
Adriana está diante de Filomena, a respiração alterada.
ADRIANA: Onde está o Francisco? Já basta desta farsa!
FILOMENA: Torno a repetir: desconhe- ço o paradeiro dele.
ADRIANA: E esta fotografia que caiu de suas mãos? O que significa?
Filomena olha fixamente para os dedos de Adriana.
FILOMENA: Não significa absolutam- ente nada. Uma velha recordação sem importância.
ADRIANA: Se é tão insignificante, por que razão tentava ocultá-la a todo custo?
Filomena dá um passo à frente para tomar o retrato. Adriana recua prontamente.
ADRIANA: Afaste-se!
FILOMENA: Entregue-me isso imedia- tamente.
ADRIANA: Não o farei.
FILOMENA: Essa fotografia não lhe pertence, menina.
ADRIANA: Talvez seja precisamente por isso que a senhora tanto se espan- ta em vê-la em meu poder.
Filomena emudece, o semblante enrijecido.
ADRIANA: A senhora sabe muito bem quem são estas crianças, não sabe?
FILOMENA: Sei.
Adriana congela, o fôlego preso na garganta.
ADRIANA: Então fale! Quem são elas?
FILOMENA: Não.
ADRIANA: Por quê?!
Filomena aproxima-se com passos felinos.
FILOMENA: Porque as grandes revela- ções desta vida têm sempre um preço muito alto, minha cara.
Adriana a encara com altivez.
ADRIANA: E eu estou disposta a pagar o que for preciso.
CENA 04-SALA DA MANSÃO/ CHEGADA DE ROSINHA-MANHÃ
Rosinha atravessa a porta da sala afobada.
ROSINHA: Adriana!
As duas voltam-se rapidamente.
ROSINHA: Conseguiu averiguar alguma pista?
Adriana desvia o olhar para Filomena, que permanece observando a cena de braços cruzados.
ADRIANA: Descobri que temos razões de sobra para desconfiar desta mulher. Rosinha direciona a Filomena um olhar severo.
ROSINHA: Onde está o Francisco? Onde está o meu pai?
Filomena sobressalta-se ligeiramente com a palavra, erguendo as sobrancelhas.
FILOMENA: Seu... pai?
Rosinha percebe a hesitação e firma a voz.
ROSINHA: Sim, meu pai!
FILOMENA: Ora, menina... Você sequer sabe quem gerou o seu sangue.
ROSINHA: Mas a senhora sabe, não é verdade?
Silêncio tenso no recinto.
ROSINHA: Responda! Sabe ou não sabe?
Filomena esboça um sorriso enigmático.
FILOMENA: Talvez devesse indagar a si mesma por qual motivo tanta gente empenhou-se em sepultar este segre- do durante tantos anos.
Rosinha sente o golpe, os olhos marejados.
ADRIANA: Não dê ouvidos às artimanhas dela, Rosinha!
FILOMENA: Apenas digo o que é límpido como a luz do dia.
ROSINHA: Então desembrude a ver- dade de uma vez por todas!
Filomena aproxima-se com frieza.
FILOMENA: Ainda não chegou o momento oportuno.
Ela vira as costas e retira-se soberba. Rosinha volta-se para Adriana, a voz trêmula.
O estabelecimento está de bom movimento após o alvoroço do dia anterior.
Marocas ajeita as tortas vitrine aden- tro. Kassandra trabalha em silêncio, distraída, levando distraidamente o dedo indicador à ponta do nariz.
MAROCAS: Estremecida por algum motivo, menina Kassandra?
KASSANDRA: Eu? Apenas um ligeiro mal-estar.
MAROCAS: Seria por conta daquela desavergonhada da Dona Filomena?
Kassandra para o que está fazendo.
KASSANDRA: Talvez...
MAROCAS: Não nutro a menor confiança naquela criatura. É serpente peçonhenta.
KASSANDRA: Nem eu, Marocas. Nem eu.
Marocas cerra os olhos, fitando-a com firmeza.
MAROCAS: Pois então conserve a distância devida, ou haverá de se queimar.
Trilha Sonora off.
Kassandra balirma a cabeça em concordância, embora transpareça profunda inquietação.
Um jovem mensageiro adentra a confeitaria apressado.
MENSAGEIRO: A senhorita Kassandra por obséquio?
KASSANDRA: Sou eu mesma. O que deseja?
Ele entrega-lhe um envelope lacrado.
KASSANDRA: Uma carta para mim?
MENSAGEIRO: Entregue por encarce- rado enigmático. Leia com atenção.
O rapaz retira-se. Kassandra rasga o papel com os dedos trêmulos. No bilhete, lê-se apenas uma frase: "Se desejas decifrar quem és verdad- eiramente,comparece desacompamen- hada à antiga estação ferroviária ao cair da tarde."
Kassandra empalidece, o papel sacudindo em suas mãos.
MAROCAS: Pelos santos do altar, o que foi isso, menina? O que diz esse papel?
Kassandra esconde rapidamente a missiva sob o avental.
KASSANDRA: Nada de relevante, Marocas. Apenas um recado banal.
MAROCAS: Banal? Ficou sem cor como um defunto!
KASSANDRA: Estou perfeitamente bem, juro-lhe.
Ela torna a coçar o nariz com o indicador, tique nervoso.
MAROCAS: Kassandra... olhe bem para mim.
KASSANDRA: Perdoe-me, preciso ausentar-me por instantes. Há negó- cios urgentes a tratar.
Karina abre a porta e o ajuda a entrar, cambaleando pelo hall escuro.
BERNARDO: Devagar... Meu pai não pode me ver nesse estado... Nunca.
KARINA (firme,sustentando o peso dele): Fica calmo. Eu fico aqui até você melhorar.
Ele despenca no sofá,erguendo o olhar tonto em direção a ela.
BERNARDO: Sabe... Você é completa- mente diferente do que eu pensava.
Karina segura o olhar dele, impene- trável.
KARINA: E você está completamente perdido,Bernardo. (Pausa curta. O ar do ambiente muda de densidade) E pessoas perdidas costumam fazer as piores escolhas.
Bernardo sorri fraco, desafiador.
BERNARDO: Tipo o quê?
Karina se aproxima lentamente,perigo- samente perto de seus lábios.
KARINA: Tipo confiar em quem não devia.
O clima entre os dois se transforma. É sutil,tóxico,mas magnético. Karina ergue a mão e toca levemente o rosto dele. Bernardo não recua; pelo contrá- rio, inclina-se em direção ao toque.
E ali,sob a penumbra da sala,nasce algo errado... mas absolutamente inevitável.
CENA 09-INT/QUARTO DE CLARA- NOITE
Quarto escuro e silencioso. Clara está sentada na cama,abraçando um trave- sseiro com força. Os olhos estão inchados de tanto chorar. Ela encara o vazio.
CLARA (Repetindo num sussurro): Não pode ser… Não pode ser…
Como se negar pudesse mudar a rea- lidade, a mente dela é tomada por um FLASH: O carro. A placa. Miguel.
De repente, ela se levanta num ímpeto, decidida.
CLARA: Eu preciso contar… A única pessoa que pode entender. Cristian.
CENA 10-EXT/RUA-NOITE
Cristian caminha pela calçada, pensa- tivo,de mãos nos bolsos. Ele avista Clara correndo em sua direção, visive- lmente aflita.
CRISTIAN: Clara?
Ela para diante dele,respirando fundo, ofegante.
CLARA: Eu preciso te falar uma coisa… É sobre… o acidente.
Silêncio pesado. Cristian trava, o sem- blante mudando na hora.
CRISTIAN: O que foi?
Clara respira fundo, criando coragem.
CLARA: Eu vi o carro. Eu vi quem fez isso.
O coração de Cristian dispara.
CRISTIAN: Quem?
Os olhos dela se enchem de lágrimas novamente.
CLARA: O Miguel… O carro dele… a placa… era a mesma…
Cristian fica completamente sem rea- ção, estático.
CRISTIAN: Você tem certeza?
Clara balança a cabeça afirmativa- mente.
CLARA: Eu vi. Foi ele.
O mundo parece sair do lugar ao redor deles.
CENA 11-INT/QUARTO DE MIGUEL- NOITE
Miguel está sentado na cama, num quarto mal iluminado, com as mãos na cabeça,completamente destruído.
MIGUEL (Em um sussurro carregado de culpa): Eu não sabia… Eu não sabia que era ela…
Ele passa as mãos pelo rosto, sentindo o peso da realidade. Agora a verdade tem rosto, nome e dor.
MIGUEL: Clara…
A voz falha,embargada pelo choro. Pela primeira vez,ele entende a imens- idão e a gravidade do que aconteceu.
CENA 12-INT/DELEGACIA-NOITE
Letícia está firme e concentrada, assinando alguns documentos oficiais em sua mesa.
LETÍCIA (Determinada): O agressor será mantido preso preventivamente.
Ela fecha os olhos por um segundo e solta um longo suspiro,sentindo o alívio de um ciclo tóxico finalmente quebrado.
LETÍCIA (Para si mesma, com um leve sorriso): Obrigada.
Ela se levanta e sai da sala, sentindo- se mais leve,embora mantendo a pos- tura forte de sempre.
CENA 13-EXT/RUA/CALÇADA-NOITE
Enquanto caminha,Letícia avista Mariana encostada, esperando-a.
LETÍCIA: A gente precisa conversar.
Mariana cruza os braços, séria.
MARIANA: Eu já estava esperando por isso.
LETÍCIA: Você viu alguma coisa no dia?
MARIANA: Mais do que eu falei antes. (Silêncio entre as duas) Tinha um carro.
Letícia trava, atenta.
LETÍCIA: Que carro?
MARIANA: Um carro caro. Escuro. Em alta velocidade. E alguém muito impor- tante dentro.
Letícia absorve a informação, o cére- bro conectando os pontos.
LETÍCIA: Isso muda tudo.
Mariana sorri de canto, com um brilho de desafio nos olhos.
MARIANA: Eu te disse que esse caso era muito maior do que parecia.
CENA 14-INT/HOSPITAL/CORREDOR- NOITE
Marcelo se aproxima rapidamente de Letícia enquanto ela caminha pelo cor- redor movimentado.
MARCELO: Letícia…
Ela se vira, surpresa.
LETÍCIA: Eu preciso falar com você. É sobre o caso?
Marcelo hesita por um instante,olhan- do nos olhos dela.
MARCELO: Não só isso. (Silêncio. Ele respira fundo) Eu admiro você. Sua força… sua coragem…
Ele dá um passo à frente,aproximando -se um pouco mais.
MARCELO: Eu não consigo parar de pensar em você.
Letícia recua levemente,surpresa e desconcertada.
LETÍCIA: Doutor…
MARCELO: Marcelo. Eu sei que não é o momento perfeito…
LETÍCIA: Não é.
Ela responde de forma direta, mas sem agressividade. Marcelo abre um sorriso compreensivo.
MARCELO: Mesmo assim… eu precisa- va dizer.
Letícia respira fundo,sentindo-se con- fusa. Pela primeira vez em muito tem- po,alguém a olha com cuidado e vul- nerabilidade.
CENA 15-INT/BAR-NOITE
Luz baixa,som abafado. Balcão repleto de copos vazios. Bernardo bebe sem parar, completamente fora de controle.
BERNARDO (Gritando para o barten- der): Mais uma!
A voz já falha e arrastada. Ele ri sozi- nho, amargurado.
BERNARDO: Nada importa…
Ele cambaleia ao tentar se levantar e quase cai. Antes que atinja o chão, Karina aparece. Ela o observa com um olhar clínico, analítico.
KARINA: Você está se destruindo.
Bernardo solta uma risada irônica.
BERNARDO: Você não faz ideia…
Karina dá um passo à frente.
KARINA: Eu faço sim. Eu conheço a dor.
Bernardo a encara. Pela primeira vez, sente que não está sendo julgado.
BERNARDO (Quase implorando): Me tira daqui…
CENA 16-INT/CASA DE BERNARDO- NOITE
Karina o ajuda a entrar, segurando-o pelo braço.
KARINA: Devagar… Calma.
Bernardo está completamente tonto e bêbado.
BERNARDO: Meu pai… ele não pode me ver assim…
Karina compreende a situação na hora.
KARINA: Então eu fico até você melhorar.
Ele se senta pesadamente no sofá e a encara com intensidade.
BERNARDO: Você é diferente…
Karina sustenta o olhar dele,sem desviar.
KARINA: E você está completamente perdido. Pessoas perdidas fazem coi- sas perigosas.
Bernardo dá um sorriso fraco e desa- fiador.
BERNARDO: Tipo o quê?
Karina se aproxima lentamente,perigo- samente perto.
KARINA: Tipo confiar em quem não devia.
O clima muda no ambiente. É sutil, mas palpável. Karina levanta a mão e toca levemente o rosto dele. Bernardo não recua; pelo contrário, inclina-se em direção ao toque. E ali, nasce algo errado… mas inevitável.
Quarto escuro. Silencioso. Clara está sentada na cama,abraçando um trave- sseiro. Os olhos vermelhos e inchados denunciam o choro recente.
CLARA (voz baixa,quase inaudível): Não pode ser... Não pode ser... Como se negar o fato pudesse, de alguma forma, reescrever a realidade.
FLASHBACK-MENTE DE CLARA (RÁPIDO)
• O farol do carro cortando a escuridão.
• Os números da placa gravados no asfalto.
• O rosto de Miguel.
• Clara levanta de supetão, a respiração curta.
CLARA: Eu preciso contar... A única pessoa que pode entender isso. O Cristian.
CENA 02-EXT/RUA-NOITE
Cristian caminha de um lado para o outro,pensativo,as mãos nos bolsos do casaco. De repente,avista Clara correndo em sua direção.
CRISTIAN: Clara?
Ela para diante dele,ofegante, as lágrimas ameaçando transbordar de novo.
CLARA: Cristian... Eu preciso te falar uma coisa muito séria. (A voz dela treme violentamente) É sobre... o acidente.
Cristian trava na hora. O ar parece sumir de seus pulmões.
CRISTIAN: O que foi? O que aconteceu?
Clara respira fundo, tentando juntar os cacos da própria coragem.
CLARA: Eu vi o carro. Eu vi quem fez aquilo.
O coração de Cristian dispara, ecoando em seus ouvidos.
CRISTIAN: Quem? Quem foi, Clara?
Os olhos dela se enchem d'água,a ver- dade rasgando sua garganta.
CLARA: O Miguel... O carro dele... A placa... Era exatamente a mesma.
Cristian recua um passo, completame- nte atônito, sem reação.
CRISTIAN: Você tem certeza absoluta disso?
Clara balança a cabeça afirmativame- nte, o queixo trêmulo.
CLARA: Eu vi, Cristian. Foi ele. O mun- do, ao redor deles, parece desabar e mudar de lugar.
CENA 03-INT/QUARTO DE MIGUEL- NOITE
Miguel está sentado na beira da cama, as mãos cobrindo o rosto,totalmente destruído pela própria consciência.
MIGUEL: Eu não sabia... Meu Deus, eu juro que não sabia que era ela... (A verdade fria e nua agora tem um rosto, um nome, uma dor insuportável). Clara...
A voz falha, quebrando-se no ar. Pela primeira vez na vida, ele compreende o tamanho catastrófico do que fez.
CENA 04-INT/DELEGACIA-DIA
Letícia está firme,impecável em sua postura,assinando os últimos papéis sobre a mesa.
LETÍCIA: O agressor será mantido preso preventivamente. Sem exceções. (Ela fecha os olhos por um segundo, soltando um longo suspiro. O peso de um ciclo tóxico finalmente quebrado). (olhando para o policial) Obrigada.
Ela vira as costas e sai da sala. Mais leve,mas com a postura de quem nun- ca mais abaixará a guarda.
CENA 05-EXT/CALÇADA DA CIDADE- DIA
Caminhando pela rua,Letícia avista Mariana encostada na mureta, cruza- ndo os braços com um sorriso irônico.
LETÍCIA: A gente precisa conversar, Mariana.
MARIANA: Eu já tava esperando por isso. O que foi?
LETÍCIA: Você viu alguma coisa suspei- ta no dia do atropelamento?
Mariana hesita, avaliando a policial.
MARIANA: Mais do que eu falei no de- poimento inicial (Silêncio breve entre as duas) Tinha um carro. Um veículo muito específico.
Letícia se sobressalta,os olhos fixos na testemunha.
LETÍCIA: Que carro?
MARIANA: Um carro de luxo. Escuro, vidros fumês,em alta velocidade... E, pelo porte, tinha alguém muito impor- tante lá dentro.
Letícia absorve a informação, o cére- bro processando as conexões.
LETÍCIA: Isso muda o rumo de tudo.
Mariana sorri de leve, com um brilho desafiador no olhar.
MARIANA: Eu te disse que esse caso era muito maior do que parecia.
CENA 06-INT/CORREDOR DO HOS- PITAL-DIA
Marcelo caminha apressado pelo corr- edor branco até avistar Letícia. Ele ac- elera o passo e a intercepta.
MARCELO: Letícia... Espera.
Ela freia o passo e se vira, séria.
LETÍCIA: Se for sobre o caso do hospi- tal, eu já adiantei os relatórios.
Marcelo hesita,engolindo em seco antes de falar.
MARCELO: Não. Não é sobre o caso. (Silêncio pesado no corredor estéril( Eu admiro muito você,Letícia. Sua força,sua coragem diante de tudo... (Ele se aproxima um pouco mais, inva- dindo sutilmente o espaço pessoal dela) Eu simplesmente não consigo parar de pensar em você.
Letícia recua levemente,pega comple- tamente de surpresa.
LETÍCIA: Doutor... Por favor.
MARCELO: Me chame de Marcelo. Olha,eu sei que o momento é péssi- mo...
LETÍCIA: Não é péssimo. É impossível.
A resposta é direta,firme,mas sem agressividade desnecessária. Marcelo sorri de canto,derrotado e fascinado ao mesmo tempo.
MARCELO: Mesmo assim... eu precisa- va que você soubesse.
Letícia desvia o olhar,respirando fundo, visivelmente confusa. Porque,pela primeira vez em muito tempo,alguém a está olhando com real cuidado.
CENA 07-INT/BAR-NOITE
Luz baixa, ambiente abafado e cheiro de álcool barato. Copos vazios se acumulam na mesa enquanto Bernardo bebe de forma compulsiva,sem controle.
BERNARDO (gritando para o barten- der): Mais uma! Vai! (A voz já arrastada denuncia o estado de embriaguez. Ele ri sozinho de uma piada que só existe em sua mente corrompida) Nada imp- orta mesmo... Nada...
Ele cambaleia na banqueta,quase perdendo o equilíbrio. É quando uma sombra se projeta à sua frente.
Karina surge de braços cruzados. Ela o observa com frieza, analisando cada detalhe da ruína dele.
KARINA: Você está se destruindo por completo, sabia?
Bernardo ergue o rosto,rindo de forma debochada.
BERNARDO: Você não faz a menor ideia do que está falando...
Karina dá um passo à frente,colando -se a ele.
KARINA: Eu faço ideia exata. Eu conhe- ço a dor muito bem.
Bernardo a encara. Pela primeira vez na noite, há alguém ali que não o está julgando.
BERNARDO (com voz de choro, quase implorando): Me tira daqui... Por favor.
O mercado está em pleno movimento. Nair organiza temperos em sua banca enquanto observa a barraca de Carmem. Estranha a ausência da amiga. Jurema chega carregando uma sacola e também olha para o espaço.
JUREMA: Carmem ainda não chegou?
NAIR: Nem deu notícia.
JUREMA: Aconteceu alguma coisa.
NAIR: Carmem pode estar com febre, dor,quebrada no meio. Ela vem trabalhar. Se não veio, é porque a doença é outra.
JUREMA (Entende a insinuação): Bernardo? Aquele menino sempre teve o nariz empinado. Desde pequeno.
NAIR: Também não exagera, Jurema. Pequeno ele era uma graça.
JUREMA: Era uma graça porque ficava quieto fazendo tarefa atrás da banca. Cresceu,começou a usar gravata e parece que criou alergia da gente.
NAIR: A Lalá é tão diferente. Fez faculdade,mas voltou querendo abrir restaurante aqui dentro. Bernardo fez faculdade e começou a atravessar a rua pra não passar nem na porta.
Tico, trabalhando perto delas, escuta.
TICO: Dona Nair,também não é assim. O Bernardo trabalha longe.
JUREMA: Virou advogado do advogado,é Tico?! Tá defendendo porque quer agradar a irmã dele,que aqui todo mundo sabe,que tu arrasta um bonde inteiro por causa da Lalá.
TICO: Não tá mais aqui quem falou! Fui!
Tico sai. Jurema continua o assunto.
JUREMA: Carmem deu tudo pra esses filhos. Até o que não tinha. Esse Bernardo ainda vai trazer muita tristeza pra ela.
Movimentação intensa diante do Mercadão. Carros,motos,turistas, entregadores e comerciantes disputam espaço. Lalá sai por uma das entradas carregando uma caixa grande. Dentro algumas peças de louça e um letreiro decorativo. Tenta equilibrar tudo enquanto atravessa. Um conversível surge rápido demais na curva. Buzina. Lalá se assusta. O carro freia bruscamente a poucos centímetros dela. A caixa escapa de suas mãos. As louças se quebram,o letreiro cai no chão e parte no meio. Lalá olha para o estrago,com olhos arregalados. Depois,lentamente para o motorista. Ao volante,está GAEL,óculos escuros, bonito e bem vestido. Eles se veem pela primeira vez.
LALÁ: Você tá maluco?!
GAEL: Eu freei.
LALÁ: Nossa,parabéns! Quer um prêmio?
Ela se abaixa para recolher os restos das coisas. Gael sai do carro.
GAEL: Calma,eu pago o que quebrou.
Lalá ergue o letreiro partido.
LALÁ: Ah, paga?! Então ótimo. Quase me atropela,passa o cartão e segue a vida.
GAEL: Eu não quase te atropelei.
Lalá encara o carro parado praticamente sobre a faixa de pedestres.
LALÁ: Não. Eu que me joguei na frente do seu carrinho discretíssimo, porque sempre sonhei morrer embaixo de um conversível.
Gael solta uma risada involuntária.
LALÁ: Tá rindo de que,imbecil? Porque a idiota que ficou três semanas esperando isso aqui (mostra o letreiro quebrado) não tá!
Gael pega uma das partes. Lê.
GAEL: Dona da Feira. É um restaurante?
Lalá arranca o pedaço da mão dele.
LALÁ: Não interessa. Assim como não me interessa que você pague nada. Prefiro ficar no prejuízo a ficar devendo favor pra playboy metido.
GAEL (Tom): Playboy metido?
Lalá olha para o conversível,depois para a roupa dele.
LALÁ: Quer que eu faça um desenho?
Gael sorri,definitivamente interessado.
GAEL: Qual é seu nome?
LALÁ: Pra quê? Vai colocar no boletim de ocorrência?
Ela recolhe o que resta da caixa. Gael tenta ajudar,mas ela recua,entrando no mercado carregando o letreiro quebrado. Gael permanece parado. Observa ela desaparecer entre as pessoas. Um motorista buzina.
MOTORISTA: Vai ficar aí namorando, amigo?! Bora!
Gael volta para o carro,ainda olhando para a entrada do Mercado. Sorri consigo mesmo. O carro parte. Na porta do Mercadão,Lalá o vê ir embora, irritada.
LALÁ (Para si): Babaca!
CENA 10-MANSÃO ARANHA ALENCAR /JARDIM/EXT-FIM DE TARDE
Sol se pondo. Beatriz em uma mesa próxima da piscina,debaixo de um ombrelone. Um investigador à sua frente,e sobre a mesa um envelope pardo.
INVESTIGADOR: Bernardo Lacerda, trinta anos. Advogado. Sem antecedentes,sem dívidas relevantes, boa trajetória acadêmica. Pelo que consegui levantar,profissionalmente é bastante competente.
BEATRIZ: Família?
INVESTIGADOR: O pai é falecido,Jorge Lacerda. A mãe criou os dois filhos sozinha.
Beatriz abre o envelope: Fotografias, endereços,documentos.
BEATRIZ: E o patrimônio?
INVESTIGADOR (Hesita): Não há patrimônio familiar significativo.
BEATRIZ: Como assim?
INVESTIGADOR: A residência onde vivem é modesta. A principal fonte de renda da família vem do comércio.
Beatriz continha folheando.
BEATRIZ: Sim,ele mencionou. Alimentos. Alguma importadora... Mesmo que média?
O investigador a encara.
INVESTIGADOR: Não propriamente.
Beatriz encontra uma fotografia. Carmem atrás do stand de frutas, avental na cintura,atendendo fregueses. Ela congela. Reconhece imediatamente a mulher que apareceu em sua casa.
BEATRIZ: Essa mulher...
INVESTIGADOR: Carmem Lacerda. Mãe do Bernardo.
Beatriz ergue os olhos, incrédula.
BEATRIZ: Mãe? Feirante?
INVESTIGADOR: Conhecida no Mercado Municipal como Dona da Feira. Tem uma barraca tradicional no Mercadão há mais de vinte anos.
Beatriz pega outra foto: Carmem sorridente entre caixas de frutas. Se levanta, nervosa.
BEATRIZ: Essa... Coisinha, teve aqui ontem. Mãe desse carrapato... E ele enganando todo mundo. (Se vira nervosa) Verme mentiroso!
Beatriz encara novamente a foto em suas mãos. Amassa com extrema raiva, se sentindo enganada.
CENA 11-MANSÃO ARANHA ALENCAR/ESCRITÓRIO-FIM DE TARDE
André trabalha diante do notebook quando a porta se abre abruptamente. Beatriz entra com o dossiê em mãos. Joga sobre a mesa,completamente fora de si.
BEATRIZ: Bernardo Lacerda,o grande advogado promissor que nossa filha resolveu colocar dentro desta casa.
André recosta-se na cadeira.
ANDRÉ: O que tem ele?
Beatriz abre o dossiê e coloca diante do marido a fotografia de Carmem no mercado.
BEATRIZ: Filho da feirante.
André olha a fotografia, sem reação.
BEATRIZ: Feirante,André! Aquela história de comércio de alimentos... A mulher tem uma barraca no Mercado Municipal!
ANDRÉ: E?
BEATRIZ: “E”?
ANDRÉ: Beatriz,o rapaz trabalha, estudou, é advogado. Não entendi o escândalo.
BEATRIZ: O escândalo é ele ter mentido dentro da nossa casa! Aquela mulher esteve no nosso portão ontem e ele disse que era funcionária da própria mãe.
ANDRÉ: Então ele tem vergonha dela.
BEATRIZ: O que torna tudo mais patético. Eu sabia que havia alguma coisa errada. Um rapaz sem patrimônio, sem família conhecida, aparece na vida da Sofia e em poucos meses já está sentado à nossa mesa.
ANDRÉ: Você está chamando Bernardo de golpista?
BEATRIZ: Estou chamando de pé-rapado golpista. E amanhã mesmo eu vou exigir que Sofia termine com ele.
ANDRÉ: Não vai.
BEATRIZ (Encara): Como é?
André fecha o notebook.
ANDRÉ: Você não vai exigir absolutamente nada. Pelo contrário. Seja simpática,convide o rapaz mais vezes. Faça Bernardo se sentir parte da família.
Beatriz encara o marido como se não o reconhecesse.
BEATRIZ: Você enlouqueceu?
ANDRÉ (Levantando): Heitor contratou uma auditoria externa. Meu irmão decidiu que existem números estranhos na empresa. Custos elevados, fornecedores suspeitos, alguns pagamentos que ele não consegue explicar... E se ele procurar direito,vai encontrar o que não deve.
BEATRIZ (Desconcertada): E o que isso tem a ver com esse projeto de golpista?
ANDRÉ: Tudo. Heitor não está procurando o desvio, está atrás de quem desviou.
André passa a mão pelo envelope com o dossiê sobre Bernardo. Beatriz o encara, entendendo.
BEATRIZ: Mas não faz sentido. Esse rapaz nem trabalha na Aranha Alencar.
ANDRÉ: Ainda não. (Pega uma foto do rapaz) Advogado societário... Ambicioso. Namora a filha do presidente. De repente recebe uma oportunidade dentro da companhia. Confiável,com acesso,alguns documentos assinados por ele...
BEATRIZ: Você quer colocar aquele rapaz no meio disso?
ANDRÉ: Eu quero resolver dois problemas de uma vez. (Aproxima-se) Você acha Bernardo inadequado para nossa filha?
BEATRIZ: Completamente.
ANDRÉ: Quando isso terminar, quando Heitor tiver o ladrão que está procurando atrás das grades,Sofia também vai achar.
André sorri para Beatriz e fixa o olhar na foto de Bernardo. Close em André.
EFEITO FINAL: Frutas variadas caem sobre a imagem,a cobrindo por completo. Uma porta metálica desce, encerrando o capítulo.
Carmem sustenta o olhar de Beatriz diante do portão.
BEATRIZ: Quem é você, afinal?
Carmem olha para a carteira de Bernardo, depois a encara.
CARMEM: Só vim entregar isso.
Estende a carteira. Beatriz recebe, estranhando.
BEATRIZ: É do Bernardo? E você o conhece de onde?
CARMEM (Percebe o tom): Entrega pra ele que ele vai saber.
Antes que Beatriz pergunte mais, Carmem se vira.
BEATRIZ: Espera. Não quer deixar seu nome?
Carmem olha por cima do ombro.
CARMEM: Não precisa.
Sai. Beatriz acompanha Carmem com os olhos, intrigada.
CENA 02-MANSÃO ARANHA ALENCAR /SALA/INT-NOITE
Bernardo conversa animadamente com André e Sofia,quando Beatriz retorna com a carteira nas mãos. Bernardo reconhece imediatamente.
BERNARDO: Minha carteira.
BEATRIZ (Entregando): Uma mulher trouxe pra você.
Bernardo fica tenso.
SOFIA: Quem era, mãe?
BEATRIZ: Não disse o nome. Uma mulher meio... Espalhafatosa. Sem classe... Barraqueira até. Quase discutiu com o funcionário porque ele não deixou que entrasse.
BERNARDO (Forçando um sorriso): Deve ser alguém que trabalha com a minha mãe.
BEATRIZ: Ela trabalha com sua mãe?
BERNARDO: Provavelmente. Minha mãe deve ter encontrado a carteira e pedido pra ela trazer.
Sofia aceita a explicação.
SOFIA: Ainda bem. Você ia perceber só amanhã. Se precisasse dos seus documentos, não ia ter.
BEATRIZ: Curioso. Ela não parecia funcionária de ninguém... Um jeito tão mandão.
BERNARDO: A senhora não conhece minha mãe. Trata todo mundo como família, e essa gente fica folgada mesmo. Vamos esquecer isso. E obrigado, dona Beatriz.
Bernardo sorri, guarda a carteira no bolso rapidamente. André retoma a conversa.
ANDRÉ: Pronto. Mistério resolvido. Vamos beber um cafezinho?
Bernardo aceita, ainda tenso. Sofia o abraça. Beatriz analisa o nervosismo do rapaz, não acreditando inteiramente na história.
CENA 03-RUAS DE SÃO PAULO/ ÔNIBUS/INT-NOITE
Um ônibus atravessa as ruas iluminadas de São Paulo. Poucos passageiros. Carmem sentada junto à janela, observa a cidade. Seus olhos cheios de lágrimas, tenta conter, mas escapa, limpa rapidamente. O celular toca. Na tela o nome de LALÁ. Carmem respira fundo antes de atender.
CARMEM: Oi, filha.
LALÁ: Onde você tá? Fiquei preocupada.
CARMEM: Voltando pra casa. Fui levar a carteira do seu irmão.
LALÁ: E aí? Ele te recebeu?
Carmem olha pela janela. Breve silêncio.
CARMEM: Recebeu muito bem. (Força animação na voz) Você precisava ver a casa, Lalá. Um palácio. Os sogros dele até me chamaram pra entrar, jantar com eles... Mas eu não quis. Esnobei.
Lalá ri do outro lado.
LALÁ: Claro. A Dona da Feira não aceita qualquer convite.
Carmem fecha os olhos, segurando o choro.
CARMEM: Exatamente.
LALÁ: Vem logo. Tô te esperando. Fiz uma comidinha pra gente.
Carmem sorri em meio às lágrimas.
CARMEM: Tô chegando, meu amor.
Desliga. O sorriso desaparece. Carmem encosta a cabeça no vidro. Do lado de fora, os prédios sofisticados dão lugar aos bairros populares, enquanto o ônibus segue. Ela finalmente deixa as lágrimas correrem.
A câmera roda pelas ruas de São Paulo,e a noite vai se transformando em dia novamente. O Sol nascendo entre os prédios, as avenidas ganhando a movimentação intensa dos carros e pessoas. Movimento nos principais pontos da cidade. A Ponte Estaiada ao fundo da Avenida Paulista. Os prédios espelhados da Paulista. Fachada da Aranha Alencar Engenharia.
CENA 05-ARANHA ALENCAR ENGENHARIA/ESCRITÓRIO DE HEITOR/INT-DIA
Heitor com Mauro e William, executivos da empresa. Sobre a mesa, relatórios financeiros e contratos. Heitor aponta alguns números.
HEITOR: Esses custos aumentaram sem nenhuma justificativa convincente. E não foi em um projeto, foram vários.
WILLIAM: André disse que é reflexo do mercado.
HEITOR: Meu irmão pode dizer o que quiser, até que o Papa é santo. Os números continuam não fechando.
Mauro permanece atento.
HEITOR: Por isso encomendei uma auditoria terceirizada. Quero uma equipe que não responda nem a mim, nem ao André. Começam esta semana. Contratos, pagamentos, fornecedores, tudo.
Mauro troca um rápido olhar com William.
CORTE: ESCRITÓRIO DE ANDRÉ
Mauro está diante de André, sentado em sua mesa.
MAURO: Ele quer abrir todas as contas. Parece que começam esta semana mesmo. Se eles cruzarem com os pagamentos...
ANDRÉ: Eu sei onde eles vão chegar.
André levanta,caminha até a janela, visivelmente tenso.
MAURO: Precisamos ganhar tempo, André.
ANDRÉ: Tempo não vai resolver. A gente precisa dar pra essa auditoria uma resposta.
MAURO: Que resposta?
André o encarando,pensativo, procurando uma saída.
CENA 06-AVENIDA PAULISTA/CAFÉ/ INT-DIA
Sofia está sentada diante de Rafael, que mexe no celular enquanto termina uma bebida.
SOFIA: Você tá me ouvindo?
RAFAEL: Perfeitamente.
SOFIA: O que eu acabei de falar?
RAFAEL: Alguma coisa sobre seu pai, seu namorado ou trabalho. Se você me der mais cinco segundos,eu arrisco a ordem.
Rafael entrega o celular. Na tela, imagens do Mercado Municipal: corredores movimentados,bancas coloridas,comerciantes chamando fregueses.
SOFIA: Você foi ao Mercadão?
RAFAEL: Fui. Tinha anos que não entrava lá. É ótimo pra gravar.
Ele desliza para outro vídeo. Surge Carmem diante da câmera. Sofia ri da imagem da mulher no vídeo.
SOFIA: Eu adorei essa mulher. Quem é ela?
RAFAEL: Carmem. Todo mundo chama ela de Dona da Feira. Ela manda naquele pedaço inteiro. (Pega o celular) Quero postar. Tem gente que nasce pra câmera sem saber.
SOFIA (Encantada): Ela é ótima. Tem uma coisa... Verdadeira. Eu queria ter essa espontaneidade. Se colocam uma câmera na minha frente, imediatamente começo a pensar se tô sentada direito, falando direito...
RAFAEL: Você foi criada pela Beatriz. Deve ter aprendido etiqueta antes de aprender a andar.
Sofia volta a olhar a imagem congelada de Carmem no celular.
SOFIA: Dona da Feira...
RAFAEL: Qualquer dia te levo lá.
SOFIA (Sorri animada): Eu topo. Gostei dela.
O celular de Sofia vibra. Mensagem de Bernardo. Ela sorri ao ler, Rafael percebe.
RAFAEL: Falando em gente que você gosta...
Sofia responde a mensagem imediatamente.
CENA 07-CASA DE CARMEM/COZINHA/INT-DIA
Bernardo entra arrumado para o trabalho, mexendo no celular. Para ao ver Carmem sentada, com o café intacto.
BERNARDO: Não foi ao mercado? Tá doente?
CARMEM: Não. (Encara-o) Serei direta: você tem vergonha de mim?
BERNARDO: Mãe... Que pergunta?
CARMEM: Responde. Tem vergonha de dizer que sou tua mãe? Ontem, fui entregar tua carteira na casa dos teus sogros e você me deixou plantada. Aquela mulher me olhou como se eu fosse um inseto.
BERNARDO (Vira-se, irritado): A senhora não devia ter ido lá daquele jeito. É outro ambiente, mãe.
CARMEM: E eu estrago o ambiente?
BERNARDO: Quer saber? Sim! Eu sei de tudo o que você fez, do teu sacrifício, mas eu nunca quis crescido na feira. Cheiro de peixe, pastel, gente gritando preço... Meus colegas falavam de viagens, clubes. Eu passei a vida inteira querendo sair daquilo! Qual é o crime?
CARMEM (Olhos marejados): Nenhum. Trabalhei de madrugada para você ter escolha. Só não sabia que, ao chegar lá, ia ter vergonha de quem ficou.
BERNARDO: Eu não tenho vergonha de você, mãe.
CARMEM: Tem da minha vida, dá quase na mesma. Foi aquela feira que pagou tua faculdade, teu terno, essa vida bonita que você tem hoje. Você queria sair da simplicidade, mas foi ela que abriu a porta para tudo isso. Eu nunca quis que você fosse igual a mim, mas esperava orgulho.
Carmem pega a xícara e vai para a pia. Bernardo tenta se aproximar.
BERNARDO: Mãe...
CARMEM (Seca): Vai trabalhar. Vai se atrasar.
Ela sai sem olhar para ele. Bernardo fica sozinho, pensativo, olhando para o próprio terno.
A confusão transborda para a calçada. Filomena sai cuspindo marimbondos, completamente desarrumada e imunda de creme.
FILOMENA: Eu juro que acabo com essa corja! Bando de insolentes!
Enquanto caminha pisando duro pela rua, uma senhora de respeito, que assistira a tudo da praça, interpõe-se em seu caminho.
SENHORA: Ora faça o favor, minha boa mulher!
FILOMENA (virando-se com fúria): O que foi agora, infeliz?
SENHORA: Acha bonito tratar as pes- soas com essa soberba toda e ainda destruir o comércio alheio?
FILOMENA: Cuide da sua vida e vá cerzir suas meias, velha coscuvilheira!
A senhora fica indignada, ruborizada de raiva.
SENHORA: Ah, mas não vai ficar assim! Ela chama outras vizinhas que estavam na praça, reunindo um pequeno grupo.
Em poucos segundos, Filomena se vê cercada.
FILOMENA: O que significa isso? Afas- tem-se de mim.
SENHORA: Vamos dar uma boa lição de educação nessa desaforada!
As mulheres avançam,puxando-lhe a capa e repreendendo-a em coro. Filo- mena tenta desvencilhar-se, esbaforida.
FILOMENA: Soltem-me imediatamente! Seus monstros!
SENHORA: Hoje a senhora aprende a respeitar o nosso bairro!
Atracada e puxada para longe da praça ,Filomena consegue enfim escapar correndo,com os chapéus tortos e as roupas em farrapos. Olhando para trás, cospe marimbondos:
FILOMENA: Vocês hão de me pagar caro por isso! Todas vocês!
CENA 07-CONFEITARIA DOIS AMORES -TARDE
De volta ao interior da confeitaria, Kassandra espreita a porta, vendo a rival bater em retirada.
KASSANDRA: Ora, pelo visto a recep- ção não foi do agrado dela.
Marocas começa a rir, tirando os restos de creme do avental.
MAROCAS: Menina, você viu a careta que ela fez quando levou a torta? Não há quem aguente!
Kassandra gargalha gostosamente.
KASSANDRA: Quem diria que uma singela torta de coco causaria tama- nha arruaça…
Por hábito,ela leva o dedo indicador ao nariz e coça de leve. Marocas balança a cabeça, sorrindo.
MAROCAS: Ora veja, lá vem você com essa mania outra vez!
KASSANDRA (rindo): É mais forte do que eu, Dona Marocas! É meu jeitinho.
CENA 08-MANSÃO/FUNDOS-TARDE
Filomena chega aos fundos da mansão com o vestido arruinado e o rosto ver- melho de fúria. Romeu, encostado no batente, a observa espantado.
ROMEU: Céus do meu caderno… O que aconteceu com a senhora?
FILOMENA (olhos chispando fogo): Nem ouse me fazer perguntas, Romeu.
ROMEU: Foi uma discussão?
FILOMENA: Foi uma verdadeira guerra civil!
Romeu morde os lábios para não rir da figura lamentável.
FILOMENA: Está achando graça da minha desgraça, moleque?
ROMEU: Eu? Nem por sombras, dona Filomena.
FILOMENA: Pois está com cara de quem está!
ROMEU: Talvez… um bocadinho apenas.
Filomena lança-lhe um olhar que ma- taria um boi. Romeu pigarreia e fecha o semblante.
ROMEU: Já me calei. Perdoe-me.
Ela respira fundo, ajeitando os cabelos desgrenhados.
FILOMENA: Escute aqui, Romeu. Aquela tal de Kassandra está fazendo perguntas demais da conta.
ROMEU: Sendo assim, talvez fosse prudente desmanchar essa aliança com ela.
FILOMENA: De maneira nenhuma.
ROMEU: E por que razão?
FILOMENA: Porque tenho para mim que ela é exatamente a peça que falta- va no meu tabuleiro.
CENA 09-MANSÃO/QUARTO DE FRANCISCO-TARDE
Mais tarde,aproveitando a penumbra, Romeu entra sorrateiramente no quar- to onde Francisco se encontra recluso.
FRANCISCO: Graças a Deus, você voltou, Romeu.
ROMEU: Vim trazer um jarro d'água fresca para o senhor.
FRANCISCO: Escute-me bem, preciso falar com urgência.
ROMEU: Eu imagino o que seja, seu Francisco.
FRANCISCO: Você tem de me ajudar a sair deste cativeiro. Não aguento mais este quarto abafado.
Romeu olha apreensivo para a porta trancada.
ROMEU: Eu não sei se disponho de coragem para tanto… Filomena está vigilante.
FRANCISCO: Consegue sim, rapaz! Basta querer.
ROMEU: Ela anda desconfiada de tudo e de todos.
FRANCISCO: Então faça algo antes que seja tarde demais para nós dois!
Romeu coça o queixo, pensativo e determinado.
ROMEU: Sabe de uma coisa? Acho que acabo de ter um plano.
CENA 10-RUA DA CONFEITARIA-TARDE
Mais tarde, Rosinha passa novamente em frente à Confeitaria Dois Amores. Kassandra está varrendo a entrada. As duas cruzam o olhar e se reconhecem de imediato.
KASSANDRA: Ora, é você…
ROSINHA: Nós já nos vimos por estes lados, não é mesmo?
KASSANDRA: Sim, na praça.
Rosinha aproxima-se com um sorriso amigável.
ROSINHA: Sabe… eu acho isto tudo tão esquisito.
KASSANDRA: O que lhe parece esquis- ito, menina?
ROSINHA: Não sei explicar… Mas sinto como se já a conhecesse de longa data.
Kassandra para com a vassoura e, por instinto, leva o dedo indicador ao nariz.
KASSANDRA: Ora pois… quer que eu lhe diga? Sinto exatamente a mesma coisa ao olhar para a senhorita.
Rosinha solta uma risadinha cristalina.
ROSINHA: Diga-me uma coisa… a senhorita faz sempre esse trejeito?
KASSANDRA: Que trejeito?
ROSINHA: Esse de coçar o nariz com a ponta do dedo.
Kassandra ri, envergonhada.
KASSANDRA: Ah, creio que é uma mania antiga que trago comigo.
Enquanto as duas conversam anima- damente,do outro lado da rua, Filome- na surge na esquina. Ao perceber a proximidade amigável entre ambas, seu semblante gela.
FILOMENA: Não… isto não pode estar acontecendo…
CENA 11-RUA DA CONFEITARIA-TARDE
Rosinha fita os olhos profundos de Kassandra.
ROSINHA: Perdoe-me a franqueza… posso fazer-lhe uma pergunta íntima?
KASSANDRA: Pois não, pergunte à vontade.
ROSINHA: A senhorita sabe quem foram seus verdadeiros pais?
Kassandra perde o sorriso e fica séria de repente.
KASSANDRA: Não… nunca soube. Fui criada sem conhecer minhas origens.
Rosinha arregala os olhos,profunda- mente surpresa.
ROSINHA: Santo Deus… Eu tampouco sei quem são os meus.
Um silêncio carregado de significado paira entre as duas.
KASSANDRA: Talvez… seja por isso que meu coração reconheceu a senh- orita desde o primeiro instante.
ROSINHA: Talvez seja sim…
As duas estendem as mãos e apertam- nas com carinho. Ao longe,Filomena range os dentes de pavor.
FILOMENA: Elas estão se aproximando demais… Vão descobrir tudo!
CENA 12-MANSÃO/ESCRITÓRIO-NOITE
Já recolhida à noite,Filomena entra so- rrateiramente em seu escritório partic- ular na mansão. Abre a gaveta tranca- da a chave e de lá retira a velha fotografia das duas crianças. Ela olha fixamente para a imagem.
FILOMENA: Rosinha.
Seus olhos descem para o outro bebê na foto.
FILOMENA: E Kassandra…
Filomena fecha os olhos com força, num sussurro gélido:
FILOMENA: Vocês estão chegando perto demais da verdade…
Ela torna a guardar a fotografia na gaveta. Contudo, atrás dela,uma voz firme e cortante ressoa no silêncio da sala:
ADRIANA: Perto demais de quê, Filomena.
Filomena congela instantaneamente. Com o coração aos pulos,vira-se vaga- rosamente. Adriana está ali, parada à porta, com os braços cruzados e olhar implacável.
ADRIANA: Eu acabei de ouvir o seu cochicho.
FILOMENA (tentando disfarçar o pâ- nico): Ora,Adriana… eu estava apenas … a raciocinar sozinha.
ADRIANA: Não ouse mentir para mim!
Adriana dá um passo firme à frente.
ADRIANA: Responda-me sem rodeios: onde está Francisco?
Filomena engole em seco e permanece em absoluto silêncio.
ADRIANA: E por qual razão a senhora guardava com tanto zêlo uma fotogra- fia da infância de Rosinha?
Com as mãos trêmulas,Filomena aper- ta a gaveta contra o peito, acuada.
CORTE RÁPIDO PARA:
O cômodo escuro onde Francisco se encontra prisioneiro. Ele ouve o ranger discreto de alguém destrancando a porta pesada.
FRANCISCO: Quem está aí a esta hora?
A porta vai se abrindo lentamente, rev- elando apenas uma silhueta na penu- mbra. Os olhos de Francisco se abrem espantados:
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CONFLITO • Capítulo 21
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-EXT/MANSÃO-NOITE
Cristian chega à mansão com passo firme e determinado. Ele sobe os degraus e toca a campainha com força.
A porta se abre. Miguel surge do outro lado.
Os dois se encaram. Um silêncio pesado paira no ar.
CRISTIAN: A gente precisa conversar.
Miguel desvia o olhar por um segundo, compreendendo.
MIGUEL: A Clara te contou.
Cristian não nega. Sua postura é rígida.
CRISTIAN: Foi você?
A pergunta corta o ar. Direta. Sem espaço para fugas. Miguel baixa os olhos, a culpa evidente.
MIGUEL: Eu… não sabia que era ela…
Cristian dá um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Miguel.
CRISTIAN: Mas foi você. (Silêncio) foi você que destruiu tudo.
A voz de Cristian começa a falhar, carregada de uma mistura profunda de raiva e dor.
MIGUEL: Eu tô pagando por isso todos os dias.
CRISTIAN (Explodindo): NÃO TÁ! Quem tá pagando sou eu! Eu perdi tudo!
Miguel segura a própria dor, contido.
MIGUEL: E eu vou assumir—
CRISTIAN: Vai?
Silêncio tenso.
CRISTIAN: Ou seu pai vai te impedir?
A frase atinge o alvo com precisão, acertando fundo. Miguel trava, sem reação. Cristian recua, dando as costas.
CRISTIAN: Se você não fizer isso… Eu faço.
Cristian vai embora, deixando Miguel sozinho na entrada com a decisão mais difícil de sua vida.
CENA 02-EXT/JARDIM-DIA SEGUINTE
Clara está no jardim. Miguel se aproxima cauteloso.
MIGUEL: Clara…
Ela se afasta no mesmo instante, o corpo rígido.
CLARA: Não chega perto de mim.
A voz dela treme, mas mantém-se firme.
MIGUEL: Eu não sabia…
CLARA (Gritando, com lágrimas nos olhos): MAS FOI VOCÊ! Foi você que tirou ela de mim!
Silêncio sufocante. Miguel tenta se redimir.
MIGUEL: Eu posso consertar—
CLARA (Recuando ainda mais): NÃO! Você acabou com tudo!
Os olhos dela transbordam de dor e uma desilusão irrevogável.
CLARA: Eu confiei em você… E você mentiu.
Miguel abre a boca, mas não tem resposta.
CLARA: Vai embora. E nunca mais volta.
Dessa vez, o tom não deixa dúvidas: é definitivo.
CENA 03-INT/ESCRITÓRIO-NOITE
Letícia está sozinha,imersa em pensamentos. Na sua mente, Cristian e Marcelo se alternam. Dor, cuidado e conflito formam um nó em sua cabeça.
O celular vibra sobre a mesa. Na tela, a mensagem de Marcelo: "Penso em você."
Letícia fecha os olhos,exausta e confusa.
Segundos depois,o celular vibra novamente. Mensagem de Cristian:
"Preciso de você." Ela segura o aparelho entre as mãos, dividida entre dois caminhos, sem saber qual direção seguir.
CENA 04-INT/CASA DE BERNARDO- NOITE
O clima na casa está pesado. Bernardo continua fragilizado,mas agora plenamente consciente de seus atos.
Karina se aproxima dele com suavidade.
KARINA: Você não tá bem.
BERNARDO: Nunca estive.
Eles se olham. A proximidade entre os dois é palpável, carregada de uma tensão perigosa.
BERNARDO: Você me entende…
Karina ergue a mão e segura o rosto dele com delicadeza.
KARINA: Mais do que você imagina.
Silêncio. E então, eles se beijam. É um beijo intenso, errado em tantos níveis, mas totalmente inevitável. Um envolvimento nasce, fundado sobre as bases da dor e da destruição.
Do lado de fora, Fernanda chega à propriedade. Ela olha através da janela e vê a cena na sala.
Ela congela.
FERNANDA: Não…
A fúria sobe pelo seu corpo, substituindo o choque.
FERNANDA: Ele tá com ela… Isso não vai ficar assim.
CENA 05-INT/CASA DE BERNARDO- MAIS TARDE
Bernardo está ao telefone,conversan-
do em tom baixo com alguém.
BERNARDO: Ela viu o carro…
Ele silencia por um instante, o olhar escurecendo perfeitamente.
BERNARDO: Então ela sabe.
Sua respiração se torna pesada.
BERNARDO: Isso é um problema.
Um plano sombrio começa a nascer em sua mente.
Silêncio absoluto. Clara está sozinha no quintal,pensativa e visivelmente fragilizada. Passos se aproximam. Bernardo surge das sombras.
BERNARDO: Clara…
Ela se vira rapidamente, sobressaltada.
CLARA: O que você quer?
Bernardo abre um sorriso falso.
BERNARDO: Conversar.
Clara recua, desconfiada.
CLARA: Vai embora.
Ele avança um passo.
BERNARDO: Você viu o carro, né?
O silêncio pesa como chumbo. Clara trava.
CLARA: Eu sabia…
Antes que ela possa reagir, Bernardo avança e segura firmemente o braço dela.
CLARA: Me solta!
BERNARDO (Descontrolado): Você vai estragar tudo!
Clara tenta se desvencilhar com todas as forças.
CLARA: SOCORRO!
Com um empurrão brutal, Bernardo a joga com força.
O corpo de Clara despenca na água da piscina. O impacto ecoa. Na água, ela se debate desesperadamente, sem conseguir encontrar apoio para subir.
CLARA (Gritando, engolindo água): ME AJUDA!
Na borda, Bernardo observa a cena com frieza absoluta.
BERNARDO: Era melhor você não saber…
Clara afunda, volta à superfície lutando contra a exaustão, mas a força a abandona rapidamente.
CENA 06-PISCINA/CASA DE KARINA- NOITE
A água fria e escura engole tudo. Clara debate-se com desespero, os braços fustigando a superfície em busca de ar, mas a fraqueza pesa como chumbo.
Na borda, Bernardo observa a cena de cima. Inerte. Frio. Sem mover um único dedo para salvá-la. O reflexo da lua corta a água enquanto ela afunda mais uma vez.
Clara consegue romper a superfície por um segundo, engolindo ar e tossindo, com os olhos arregalados de terror ao encarar a silhueta dele.
CLARA (com a voz cortada pela água, fraca): Socorro... Bernardo... me ajuda! Por favor...!
Bernardo inclina levemente o tronco para a frente, apoiando as mãos nos joelhos, com um sorriso frio e cínico desenhado nos lábios.
BERNARDO (tom calmo, cortante):
Foi você que cavou a própria cova, Clara. Quem mandou enfiar o nariz onde não foi chamada?
CLARA (desesperada, afundando de novo): Não... eu juro... eu não vou...
A água cobre a cabeça dela novamen-
te. Ela agita os braços embaixo d'água, lutando contra a correnteza artificial e o próprio cansaço, enquanto as bolhas de ar sobem à superfície.
Bernardo apenas endireita o corpo, ajeita a gola da camisa e dá dois passos para trás, virando as costas sem demonstrar um pingo de remorso.
BERNARDO (em um sussurro gelado para si mesmo): Alguns segredos simplesmente não podem ver a luz do dia.
Ele se afasta lentamente,deixando que o silêncio da noite engula os gritos abafados que vêm lá de dentro da piscina.
CENA 07-RUAS DA CIDADE-NOITE
Cristian caminha a passos largos pela calçada escura, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, ainda fervendo de raiva após a discussão. De repente, ele trava o passo.
A respiração acelera sem motivo aparente. Uma fisgada aguda de pânico atravessa seu peito, tirando-lhe o ar por um segundo. Ele olha fixamente para o horizonte, com os olhos arregalados pela intuição súbita.
CRISTIAN (sussurrando, tomado por um calafrio): Não... Não pode ser...
Ele aperta as mãos com força, sentin-
do com a precisão de um soco no estômago que algo terrível está acontecendo agora mesmo.
CRISTIAN (em voz alta, desesperado):
Clara...!
Sem pensar duas vezes, ele dá meia-
volta e dispara a correr na direção oposta,consumido pelo pior pressen-
timento de sua vida.
CENA 08-ESCRITÓRIO DE LETÍCIA- NOITE
Luz fraca. Letícia permanece estag-
nada diante da mesa de trabalho, iluminada apenas pelo brilho frio da tela. O celular vibra em sua mão, trazendo notificações de dois mundos completamente diferentes e inconcili-
áveis. Dividida entre a razão e o caos, ela trava, incapaz de dar um passo sequer.
Ela olha para a primeira mensagem, enviada por Marcelo.
LETÍCIA (lendo em voz alta, a voz um sussurro frágil): "Penso em você..."
Um suspiro pesado escapa de seus lábios, carregado de culpa e afeto contido. Mas, logo em seguida, o aparelho vibra de novo. Ela desliza o olhar para a segunda mensagem, enviada por Cristian.
LETÍCIA (com o cenho franzido, sentin-
do o peso do nome): "Preciso de você..."
Ela aperta o celular com força entre os dedos, as lágrimas ameaçando cair enquanto o silêncio do escritório parece sufocá-la.
LETÍCIA (para si mesma,desesperada):
O que eu faço...? Qual dos dois lados vai me destruir primeiro?
Entre dois caminhos perigosos, ela continua imóvel, sem saber qual direção seguir antes que seja tarde demais.
CENA 09-APARTAMENTO DE MIGUEL-NOITE
Miguel anda de um lado para o outro no quarto escuro, as mãos na cabeça, tomado por um desespero cego e sufocante. Ele não tem a menor noção do perigo iminente que ronda Clara, totalmente preso à culpa que esmaga o seu peito.
MIGUEL (andando em círculos, a voz alterada): Droga... Droga, eu fui um idiota! Como é que eu pude deixar as coisas chegarem a esse ponto?
Ele para diante da janela, fitando o reflexo do próprio rosto no vidro, transtornado pela própria fraqueza.
MIGUEL (sussurrando, com os olhos marejados): A culpa é minha... Eu destruí tudo. Se ela soubesse o quanto eu queria consertar...
Ele desfere um soco leve na parede, respirando fundo de forma irregular, sem saber que a gravidade do que ele esconde já se transformou em uma corrida contra a morte lá fora.
MIGUEL (para si mesmo): Eu preciso dar um jeito nisso... Amanhã mesmo eu acabo com essa mentira. Amanhã...
CENA 10-PISCINA/CASA DE KARINA- NOITE
O relógio invisível parece correr mais rápido. O oxigênio vai se esgotando no peito de Clara. Debaixo d'água, ela agita os braços com o que lhe resta de força para emergir, mas a água fria pesa como chumbo, puxando-a para o fundo.
CLARA (pensamento/ecoando em desespero): Não... eu não posso morrer aqui... eu preciso sair...
Ela tenta dar uma última braçada, mas a visão começa a escurecer. Seus dedos arranham a parede da piscina em vão.
FIM DO CAPÍTULO
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CENA 06-MANSÃO ARANHA ALENCAR
/ESCRITÓRIO/INT-NOITE
André serve as bebidas. Edgar permanece inquieto.
EDGAR: Tá tão evidente assim o meu desespero?
ANDRÉ: Passou o jantar inteiro olhando para a garrafa sem beber. Alguma coisa aconteceu, meu amigo.
EDGAR (Respira fundo): Os negócios apertaram. Perdi dois contratos grandes,tenho recebíveis atrasados e uma dívida vencendo.
ANDRÉ: Quanto?
EDGAR: Preciso de dinheiro,André. Emprestado. Só até reorganizar o caixa. Eu não pediria se tivesse outra saída.
ANDRÉ: Cecília sabe?
EDGAR: Se soubesse,você acha que ela estaria discutindo réveillon? Posso contar com você?
André toma um gole.
ANDRÉ: Deixa comigo. Amanhã conversamos sobre valores. (Aperta seu ombro) Amigos servem pra isso.
Edgar respira aliviado. André o analisando.
CENA 07-SÃO PAULO/BAR/INT-NOITE
Trilha Sonora On:https://youtu.be/QiwjyENhHzw?is=q_OWx...
Bar charmoso e movimentado. Sofia e Bernardo dividem uma mesa com Erom. Bebem e conversam descontraídos.
EROM: Mas o Bernardo não mudou nada. Na faculdade,sempre foi assim. Podia estar com o mundo caindo na cabeça,mas aparecia de camisa passada e fingindo que estava tudo ótimo.
BERNARDO: Não começa.
SOFIA: Agora eu quero saber.
EROM: Teve uma época que ele quase trancou o curso.
SOFIA (Surpresa): Você nunca me contou.
BERNARDO (Bebe um gole): Porque não tem nada de interessante,o Erom que fala demais quando bebe.
Bernardo fuzila Erom com os olhos. Ele levanta a mão,rindo,meio alcoolizado.
EROM: Pra ele não tem nada interessante,mas pra dona Carmem, que fez milagre pra pagar mensalidade,talvez tenha. (Levantando) Licença,falei demais.
Clima pesado. Sofia encara Bernardo.
SOFIA: Bernardo,você sempre fala da sua família como se... Sei lá. Como se esse assunto tivesse uma porta que eu não posso abrir.
BERNARDO: Minha família não é rica, Sofia.
SOFIA: E você acha que eu pensei que fosse?
BERNARDO: Talvez não tenha dimensão. Minha mãe criou eu e minha irmã praticamente sozinha. Tudo foi muito apertado. Eu estudei com bolsa, ela completava o que faltava... teve mês complicado.
Sofia faz carinho em seu rosto.
SOFIA: E por que você fala disso como se estivesse confessando alguma coisa? Eu quero conhecer sua mãe.
BERNARDO: Sofia..
SOFIA: E sua irmã. Quero conhecer sua casa,saber onde você cresceu. Você já conhece tudo da minha vida.
BERNARDO: Você vai conhecer. Só que ainda não é a hora.
SOFIA: Estamos juntos há meses. Qual seria a hora certa? Estou tentando entender por que você me mantém longe de uma parte inteira da sua vida.
Bernardo baixa os olhos.
BERNARDO: Só me dá um pouco mais de tempo.
Sofia fica claramente chateada,mas não quer transformar a noite em discussão. Acaricia seu rosto.
SOFIA: Eu te dou tempo. Só não quero que você ache que precisa esconder alguma coisa de mim. Eu não me apaixonei pela sua conta bancária, Bernardo.
BERNARDO (Sorri): Ainda bem.
SOFIA: Até porque eu nem sei quanto você tem.
Riem. Sofia o beija com carinho,ele corresponde. Ao abraçá-la,seu semblante fica preocupado.
CENA 08-CASA DE GUSTAVO/SALA/ INT-NOITE
GUSTAVO (Nando Cunha) assiste à um jogo de futebol na televisão. Tico termina de comer alguma coisa na mesa,quando CADÚ (Isaac Lopes) atravessa a sala já arrumado para sair. Gustavo olha o filho.
GUSTAVO: Aonde você vai essa hora?
CADÚ: Cantar.
GUSTAVO: Cantar onde?
CADÚ: Num bar,pai. Um amigo conseguiu um espaço pra mim. Duas músicas hoje. Se gostarem,talvez me chamem de novo.
TICO (Animado): Sério? Porque não avisou? Eu ia querer te assistir.
CADÚ (Olhando o pai): Queria evitar interrogatório.
GUSTAVO: Interrogatório nada. Só não entendo isso. Você tem trabalho comigo no mercado,tem seu dinheiro garantido e fica inventando moda.
CADÚ (Desconfortável): Pai,eu gosto da barraca. Mas não quero passar o resto da minha vida vendendo queijo.
GUSTAVO: E cantar em boteco agora é profissão? Isso é fantasia,Cadú!
CADÚ: É meu sonho.
Gustavo olha novamente para a roupa do filho.
GUSTAVO (Insinuando): E que tipo de lugar é esse?
CADÚ (Evitando): Um lugar onde tem música.
TICO (Interfere): Pai,deixa o Cadú! Tá procurando problema onde não tem.
Gustavo levanta, irritado.
GUSTAVO: Eu conheço essas histórias de artista,cantor,gente da noite... Eu só não quero filho meu virando fruta por aí.
Cadú sente profundamente. Tico se aproxima do irmão, nervoso.
TICO: Olha o jeito que você fala com ele. Tá falando besteira! O quer cantar. Qual é o problema? Se der certo, ótimo. Se der errado,ele tenta outra coisa. A vida é dele.
GUSTAVO: Enquanto morar debaixo do meu teto/
CADÚ: Eu trabalho,pai. Pago minhas coisas. Ajudo dentro de casa e na sua barraca todo santo dia. Só queria que, pelo menos aqui dentro,eu não precisasse ficar medindo cada coisa que faço pra você não achar alguma coisa errada em mim.
GUSTAVO: Eu só quero o melhor pra vocês.
CADÚ: Então algum dia pergunta o que é melhor pra mim.
Cadu sai,nervoso. Tico encara o pai, decepcionado.
TICO: Pegou pesado.
Gustavo não responde, pensativo.
CENA 09-MERCADO MUNICIPAL/ FUTURO RESTAURANTE/INT-MANHÃ
O dia já amanheceu. As bancas do mercado Municipal já em pleno funcionamento. Lalá atravessa o mercadão,entra no local do futuro restaurante,conferindo uma lista enquanto um funcionário termina de pintar uma parede. Ela se abaixa para pegar uma caixa.
VOZ (OFF): Entrega para Dona da Feira.
Lalá reconhece a voz. Se vira e vê Gael,parado na entrada,sorridente, segurando um grande embrulho.
LALÁ: Você?! Não acredito.
GAEL: Bom dia pra você também, esquentadinha.
LALÁ: O que você tá fazendo aqui?
GAEL: Tentando evitar um processo por destruição de patrimônio.
Ele entra e apoia cuidadosamente o embrulho sobre uma bancada.
LALÁ: Eu já falei que não quero seu dinheiro.
GAEL: Ótimo. Porque eu não trouxe dinheiro.
Gael retira o embrulho. Lalá se surpreende ao ver o novo letreiro: “DONA DA FEIRA”,reproduzido praticamente igual ao que foi quebrado. Por alguns segundos,perde a pose.
LALÁ: Como você conseguiu isso,em tão pouco tempo?
GAEL: Tinha o nome do fabricante num pedaço do outro. Liguei,mandei uma foto e pedi outro igual. Eu quebrei. Achei justo consertar.
LALÁ: Você não quebrou. Eu derrubei porque você quase me atropelou.
GAEL: Então estamos progredindo. Ontem eu era um assassino. Hoje sou só responsável indireto.
Lalá acha graça. Gael olha o entorno.
GAEL: Então é aqui o futuro Dona da Feira?
LALÁ (Orgulhosa): Vai ser. (Mostra o espaço) Comida brasileira, ingredientes daqui do mercado, fornecedores daqui... mas sem aquela coisa de fazer comida popular parecer menor porque não vem numa louça de cinquenta anos.
GAEL (Sorri): Você gosta mesmo disso. Seu olhar brilhou falando disso tudo.
Lalá sorri. Se olham intensamente,há uma clara atração.
TICO (OFF): Licença?
Lalá desvia o olhar. Tico entra carregando uma caixa de ferramentas, olho fixo em Gael.
TICO: Quem é ele, Lalá?
Lalá encara Tico e depois Gael. Tico e Gael se encarando.
CENA 10-MERCADO MUNICIPAL/INT- MANHÃ
Mercado Municipal está lotado. Beatriz e Cecília caminham pelos corredores, impecavelmente vestidas e completamente deslocadas em meio ao movimento de fregueses e comerciantes. Cecília observa tudo com curiosidade.
CECÍLIA: Confesso que esperava coisa pior.
BEATRIZ: Nós acabamos de entrar.
Um carregador passa depressa com um carrinho,quase atropelando. Cecília dá um gritinho histérico. As duas precisam se espremer para dar passagem.
CECÍLIA: Retiro o que disse. Ainda dá tempo de irmos embora. Isso aqui é uma selva!
BEATRIZ: Pare de exagerar! Eu não atravessei a cidade para desistir agora.
Mais à frente,ela avista a barraca de frutas de Carmem.
CECÍLIA: É ela?!
Beatriz confirma com a cabeça. As duas se aproximam. Carmem termina de entregar uma sacola e percebe as mulheres diante da banca.
CARMEM (Sorridente): Bom dia, madames. O que vai ser?
Reconhece Beatriz. Seu sorriso desaparecendo.
CARMEM: A senhora?
BEATRIZ (Retirando os óculos escuros): A senhora lembra de mim.
CARMEM: Tenho memória boa.
BEATRIZ: Naquela noite nós não fomos devidamente apresentadas.
Beatriz lança um rápido olhar para as caixas de frutas,para o avental de Carmem,para a simplicidade da barraca. Depois volta a encará-la.
BEATRIZ (Oferece a mão em cumprimento): Beatriz Aranha Alencar. Mãe da Sofia.
CARMEM (Congela): Sofia?
BEATRIZ: A namorada do seu filho.
Carmem absorvendo a informação. Olha Cecília,que a encara com um falso sorriso. Depois encara Beatriz.
CARMEM: Então,a senhora é...
BEATRIZ (Força um sorriso): A sogra de Bernardo.
Carmem engole seco. Closes alternados. Por fim,em Beatriz.
EFEITO FINAL: Frutas variadas caem sobre a imagem,a cobrindo por completo. Uma porta metálica desce, encerrando o capítulo.
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago | [YT] | 10
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DONA DA FEIRA • Capítulo 03
Escrita por:
ERICK PAVANELLI
Livremente inspirada na peça “Dona Xepa” de: PEDRO BLOCH
Direção Geral: DIOGO ITAMAR
Abertura:https://youtu.be/7K4NfXEKqMA?si=LNPhQ...
🍓🍒🍉🍑🍊🥭🍍🍌🍋🍐🍏🥝🍇🍉
CENA 01-MANSÃO ARANHA ALENCAR
/ESCRITÓRIO/INT-FIM DE TARDE
Beatriz reage diante do plano de André.
BEATRIZ: Eu não quero aquele rapaz cada vez mais próximo da minha família. Prefiro cortar o mal pela raiz. Deixar esse filho da feirante bem longe da porta dessa casa.
André contorna a mesa e se aproxima da esposa, toca em seus braços com delicadeza.
ANDRÉ: Você já foi mais esperta que isso,meu amor. Pensa comigo: Justamente por esse rapaz ser um Zé ninguém, que fica muito mais fácil usar para escaparmos dessa auditoria do imbecil do Heitor.
BEATRIZ (Desvia): Usá-lo, não abrir as portas da empresa, colocar ele ao seu lado e casar ele com a nossa única filha,André. Existem dezenas de pessoas naquela empresa que poderiam servir aos seus planos.
ANDRÉ: Mas nenhuma namora minha filha.
BEATRIZ: Exatamente! Quanto mais você aproximar esse rapaz, mais Sofia se agarra à ele. Hoje ela já fala daquilo como se fosse o grande amor da vida dela.
ANDRÉ: Melhor ainda. E você esqueça essa ideia de separar os dois. Se proibir, ela transforma Bernardo em um mártir. Quanto mais você atacar esse rapaz, mais ela vai defender ele. Vai dizer que somos preconceituosos, antiquados, que não aceitamos a origem dele...
BEATRIZ (Cruza os braços): E somos obrigados a fingir que aceitamos?
ANDRÉ: Por enquanto. Ele quer entrar no nosso mundo,quer sobrenome, prestígio,a carreira que acredita merecer. Nós vamos dar tudo isso à ele. E quando Heitor investigar... Vai encontrar um advogado ambicioso que se aproximou da filha do dono, para roubar livremente.
BEATRIZ: E Sofia vai acreditar nisso?
ANDRÉ: O amor resiste à muita coisa, menos à sensação de ter sido usada. Quando ela se sentir usada pelo Bernardo,nós não vamos precisar exigir que ela termine com ele. Ela mesma vai expulsar ele da vida dela.
BEATRIZ: E até lá?
André se aproxima,sorri,e toca em seu rosto.
ANDRÉ: Até lá, você será encantadora.
BEATRIZ: Está me pedindo demais.
ANDRÉ (Sorri): Pense que cada sorriso é um investimento.
André beija Beatriz e sai. Ela fica pensativa.
CENA 02-MERCADO MUNICIPAL/ FUTURO RESTAURANTE/INT-FIM DE TARDE
O espaço do futuro restaurante está tomado por caixas e materiais de obra. Lalá tenta organizar algumas louças, enquanto Tico em cima se uma escada,instala uma prateleira.
LALÁ: Mais pra esquerda, Tico.
TICO: Minha esquerda ou sua esquerda?
LALÁ (Ri): Desce daí antes que você caia ou quebre alguma coisa.
Lalá olha para um pedaço do letreiro quebrado por Gale encostado em um canto.
LALÁ: Falar em derrubar, você precisava ter visto o imbecil que me fez quebrar esse letreiro
TICO (Descendo): Que imbecil?
LALÁ: Um playboyzinho num conversível. Quase me atropelou na porta do mercado, freou em cima de mim. Eu derrubei tudo... Inclusive a placa do restaurante. (Frustrada) Três semanas esperando! Foi pro chão em três segundos.
TICO: Pegou a placa do carro pra cobrar dele depois?
LALÁ: Ele quis pagar. Mas óbvio que eu não aceitei.
TICO: Então você tá reclamando de quê?
Ela bate de leve no braço dele com o pedaço do letreiro.
LALÁ: Você tá do lado de quem?
TICO: Seu,claro. Só acho que podia ter deixado o sujeito parar o prejuízo.
LALÁ: Não depois daquele sorrisinho de quem acha que resolve tudo com dinheiro. Cara arrogante,metido, convencido... Mas vai,vamos trabalhar que essa inauguração não vai acontecer sozinha.
Tico pega uma caixa para levar para outro canto. Ela o para, encara.
LALÁ: Obrigada mesmo,Tico. Você é meu anjo da guarda aqui,tá me salvando.
TICO (Tímido): Para isso que serve um amigo.
Lalá se aproxima,e naturalmente, lhe dá um beijo no rosto.
LALÁ: Você é o melhor!
Ela se afasta e volta a mexer nas louças. Tico fica imóvel,leva discretamente a mão no rosto. Do corredor,Cadú chega trazendo produtos da barraca do pai e flagra a expressão do irmão.
CADÚ: Que cara é essa, mano?
TICO (Fechando o sorriso): Que cara?
Cadu olha para Lalá,depois para o irmão. Entende tudo. Ri.
CADÚ: Nenhuma. Caso grave,meu irmão. Gravíssimo!
Tico dá uma cotovelada discreta no irmão. Lalá continua trabalhando distraída. Tico a olhando,cada vez mais encantado.
CENA 03-SÃO PAULO/EXT-NOITE
Trilha Sonora On:https://youtu.be/69fSeC6qv7o?is=uBbWx...
O Sol desaparecendo aos poucos e a noite chegando,trazendo uma lua cheia,resplandecente sobre a cidade de São Paulo. Pontos conhecidos iluminados. Imagens da zona Norte da cidade. Fachada da casa de Carmem.
CENA 04-CASA DE CARMEM/COZINHA
/INT-NOITE
Carmem prepara um café enquanto Nair, sentada à mesa,observa a amiga. Carmem acaba de contar sobre a discussão com Bernardo.
NAIR: Ele falou isso mesmo? Que tem vergonha da vida que levou?
Carmem mexe o café,evitando encará-la.
CARMEM: Disse que nunca quis aquela vida. Feira,caixa de fruta,acordar de madrugada... essas coisas.
NAIR (Indignada): “Essas coisas” pagaram a faculdade dele.
CARMEM: Eu falei.
NAIR: Pagaram escola,roupa,comida. Quantas vezes você trabalhou doente pra esse menino não perceber que tava faltando dinheiro? Eu vi,Carmem. Você se matou por esses dois.
Carmem coloca uma xícara diante da amiga.
CARMEM: E faria tudo de novo.
NAIR: Deixa o Bernardo quebrar a cara sozinho uma vez na vida. Para de correr atrás. Para de proteger. Ele quer tanto essa vida de gente rica? Deixa ele viver. Uma hora vai descobrir que sobrenome bonito não abraça ninguém quando a coisa aperta. Talvez só assim ele dê valor à mãe que tem.
CARMEM: Eu tô decepcionada com meu filho, Nair. Muito. Ouvir aquilo doeu mais do que qualquer coisa que já falaram de mim.
NAIR (Segura sua mão): Então deixa ele sentir sua falta.
CARMEM: Posso ficar com raiva. Posso brigar. Posso até passar uns dias sem olhar na cara dele,mas desistir do Bernardo? Nunca.
NAIR: Ele já é um homem.
CARMEM: Pra você. Pra mim, continua sendo meu filho. E se eu perceber que ele tá fazendo uma besteira,que alguém tá querendo passar a perna nele,que alguma coisa ruim pode acontecer... Eu vou estar lá. Porque filho quando acerta tem muita gente pra bater palma. É quando erra que precisa saber que ainda tem pra onde voltar.
Nair sorri, comovida.
NAIR: Você não tem jeito.
Nair ri. Carmem também esboça um sorriso,mas logo fica pensativa.
CENA 05-MANSÃO ARANHA ALENCAR
/SALA DE JANTAR/INT-NOITE
O jantar impecavelmente servido. André e Beatriz recebem Cecília e Edgar,para jantar. Taças de vinho na mesa, risadas.
BEATRIZ: Eu ainda acho um absurdo vocês desistirem de Punta del Este no réveillon.
EDGAR: Ninguém desistiu... Ainda.
CECÍLIA: Praticamente. Quando você diz “vamos avaliar “,meus ouvidinhos escutam: “não temos dinheiro”.
BEATRIZ (Ri): Que horror!
ANDRÉ (Ri): Edgar,vem comigo escolher aquele conhaque que te falei.
Levantam e vão.
BEATRIZ: Você não faz ideia do que eu descobri.
CECÍLIA (Animada): Traição?
BEATRIZ: Pior.
CECÍLIA: Falência?
BEATRIZ: A família do Bernardo. Aquela mulher que apareceu aqui naquela noite era a mãe dele.
CECÍLIA (Olhos arregalados): A barraqueira?
BEATRIZ: Literalmente.
Beatriz pega o celular e mostra uma fotografia de Carmem atrás da banca.
BEATRIZ: Carmem Lacerda. Conhecida como “Dona da Feira”. Tem uma barraca de frutas no Mercado Municipal.
CECÍLIA (Desanimada): Então não existe importadora?
BEATRIZ: Nem distribuidora,nem empório, nem império gastronômico. A realidade é banana,mamão,melancia...
Cecília contém o riso.
BEATRIZ: E o pior: Bernardo teve coragem de fingir que a própria mãe era uma funcionária. Mas eu quero conhecer essa mulher de perto. No ambiente dela! Quero entender de onde esse rapaz saiu e o que Sofia está arranjando para a própria vida.
CECÍLIA (Surpresa): Você pretende ir ao Mercadão?
BEATRIZ: Talvez.
Cecília bebe o vinho.
CECÍLIA: Então eu vou com você. Se aquilo ficar perigoso,uma de nós chama a polícia.
BEATRIZ (Ri): Cecilia,você fala como se tivesse descoberto uma organização criminosa.
CECÍLIA: Praticamente. Mas é sério,se quiser,eu acompanho. (Rindo) Uma excursão ao povo.
Beatriz ri,achando graça. As duas brindam e bebem. Beatriz torna a olhar a foto de Carmem fixamente.
🍌🍉🍓 CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER 🍓🍌🍉
1 day ago | [YT] | 12
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CENA 06-ANTIGA ESTAÇÃO-TARDE
Ao cair da tarde, a antiga estação de trens jaz deserta e silenciosa. Kassandra aproxima-se com passos cautelosos, os sapatos ecoando nas tábuas gastas.
KASSANDRA: Há viv'alma por aqui? Quem me chamou?
Das sombras da plataforma, surge uma silhueta conhecida.
FILOMENA: Eu bem sabia que a curio-
sidade a traria até aqui, menina.
Kassandra dá meia-volta, sobressaltada.
KASSANDRA: Foi a senhora quem me mandou este bilhete infame?
FILOMENA: Em pessoa.
KASSANDRA: Com que direito?! O que pretende de mim?
Instrumental On:https://youtu.be/WoTbQoeCXoo?is=BUYFL...
Filomena retira da bolsa uma fotogra-
fia antiga e estende-lha. Kassandra toma o retrato. É a mesma imagem das duas crianças juntas.
KASSANDRA: Onde... Onde obteve esta relíquia?
FILOMENA: Nasci sabendo o que os outros tentaram encobrir a sete chaves. Eu sei quem você é, Kassandra.
Kassandra leva o dedo trêmulo ao nariz, a voz sufocada.
KASSANDRA: Pelo amor de Deus... Diga-me então: quem sou eu?!
Filomena sorri com desdém.
FILOMENA: Você, minha querida... é a irmã de sangue de Rosinha.
Kassandra estanca, petrificada no lugar.
KASSANDRA: Não... Não pode ser verdade! Isso é uma mentira deslavada!
FILOMENA: Oxalá fosse uma invenção da minha cabeça. Mas é a mais pura e trágica realidade.
KASSANDRA: Se é verdade, por que razão o mundo inteiro guardou silêncio perante mim?
FILOMENA: Porque alguém de posses e influências decidiu separar o destino de ambas no berço.
Lágrimas irrompem pelos olhos de Kassandra, que desaba em pranto abafado.
KASSANDRA: Quem?! Quem foi o monstro capaz de tal crueldade?
Filomena aproxima-se, sibilante.
KASSANDRA: A mesma estirpe arroga-
nte que agora tenta resgatar a menina Rosinha das sombras do passado.
KASSANDRA: A senhora... A senhora conhece os autores desta infâmia? Meus pais... Conhece-os?
FILOMENA: Conheço-os como conheço a palma da minha mão.
Desesperada, Kassandra agarra as lapelas do casaco de Filomena.
KASSANDRA: Então suplico-lhe, revele-me os nomes deles! Quem são?!
Filomena retém a fotografia no alto, fora do alcance.
KASSANDRA: Posso revelar cada detalhe, sim...
KASSANDRA: Então fale, pelo amor de Deus!
FILOMENA: Contudo, para tudo nesta vida há um tributo a pagar. Estás disposta?
Kassandra fecha os olhos com força, esmagando a própria angústia.
KASSANDRA: Eu já sabia... Sabia que havia torpeza por trás disso.
FILOMENA: Quero que te infiltres na intimidade de Rosinha.
KASSANDRA: Para quê?! Que maldade trama contra ela?
FILOMENA: Apenas para descobrir o que a caboclinha sabe e me relatar cada passo.
KASSANDRA: Isso é vil! É uma baixeza sem nome!
FILOMENA: Talvez seja. A virtude, afi-
nal, raras vezes traz respostas.
KASSANDRA: E por que razão eu haveria de me prestar a tal papel abjeto?
Filomena saca um segundo documento amarelado e entrega-lhe. Kassandra passa os olhos pelas linhas. O fôlego falta-lhe no peito.
KASSANDRA: Meu Deus... Isto é...
FILOMENA: A certidão original do seu batismo e do seu nascimento. O documento que prova de onde vieste.
Kassandra aperta o papel contra o peito, as mãos crispadas.
FILOMENA: Posso entregar-lhe toda a sua história numa bandeja...
KASSANDRA: E o preço estipulado é apunhalar a minha própria irmã pelas costas?!
FILOMENA: O preço, minha cara, é o conhecimento da verdade. Escolha: a ignorância feliz ou a dolorosa luz dos fatos.
Kassandra silencia, a alma dividida pelo abismo.
Filomena dá alguns passos de retirada, fria e calculadora.
FILOMENA: Pondere com calma. O trem da vida não espera os indecisos.
KASSANDRA: A senhora é um monstro
... Está me manipulando como a uma marionete!
FILOMENA: É bem provável que sim.
KASSANDRA: Eu abomino essa crueldade!
FILOMENA: Pois prove então que é feita de fibra mais forte do que eu.
Filomena começa a afastar-se na neblina. Kassandra fita o documento uma última vez, o lábio inferior trêmulo.
KASSANDRA: Espera...
Filomena detém o passo, sem se virar de todo.
KASSANDRA: Eu aceito o trato.
Um sorriso triunfante ilumina o rosto de Filomena no escuro.
FILOMENA: Eu bem sabia que a prudê-
ncia venceria a altivez.
KASSANDRA: Não se iluda. Aceito, mas que fique bem claro: não nutro por ti nem um pingo de confiança ou respeito.
Filomena volta-se lentamente, fitando
-a com desdém divertido.
FILOMENA: A sua confiança em minha pessoa é o que menos me importa, menina.
Ela aproxima-se a passos curtos.
FILOMENA: O que me interessa é a sua utilidade.
Kassandra olha para a fotografia da irmã, os olhos chispando de lágrimas contidas.
KASSANDRA: Custe o que custar... Eu hei de descobrir toda a verdade.
Instrumental off.
CENA 07-CASA DE JANDIRA-FIM DE TARDE
Trilha Sonora On:https://youtu.be/H8Nw5FfhAog?feature=...
Na modesta sala da casa de Jandira. Juca repassa à mãe os pormenores que descobriu sobre a misteriosa origem de Rosinha.
JANDIRA: Ora, ora... De modo que a menina possui uma irmã perdida pelos descaminhos do mundo?
JUCA: É o que dizem os boatos mais firmes da cidade, mãe. Ninguém sabe ao certo.
Jandira cruza os braços, fitando o horizonte através da janela poeirenta.
JANDIRA: E onde andará essa suposta criatura? Em que canto do mundo se esconde?
JUCA: É um mistério. Nenhuma alma viva tem pista.
Jandira volve os olhos para o filho, um brilho astuto no olhar.
JUCA: Quem sabe não esteja bem mais próxima do que a nossa própria imaginação alcança...
JUCA: O que a senhora quer insinuar com isso, mãe? Fale claro!
Jandira morde o lábio, hesitando por um segundo.
JUCA: Nada... Apenas divagações de velha.
Juca percebe perfeitamente que a genitora oculta algo de grave.
JUCA: Mãe, pela alma de meu pai! A senhora sabe de alguma coisa que nos escapa, não sabe?
JANDIRA: Ainda é cedo para certezas, meu filho. Deixe o tempo revelar o que for d'enxofre.
Trilha Sonora off.
CENA 08-RUAS-FIM DE TARDE
Instrumental On:https://youtu.be/gm4Lx9A6CoA?is=HOt4i...
Pelas ruas poeirentas da vila, Catarina caminha cabisbaixa quando avista, com horror, mais um pretendente engomado aproximando-se da soleira de sua casa para cortejá-la.
CATARINA: Não... Outra vez não! Pelos santos do céu, é praga!
DURVAL (Do alpendre, cruzando os braços): Quem é o infeliz da vez que ousa profanar o meu umbral?
CATARINA: Pai, por piedade! Tenha compostura! O rapaz veio apenas fazer uma visita de cortesia!
DURVAL: Visita de cortesia?! Com intenções casamenteiras neste corpinho é que ele não entra!
CARMELITA (Saindo à porta com um pano de prato): Durval, meu marido, comporte-se como um cristão diante da visita!
DURVAL: Eu me comporto com a decência que os vagabundos merecem!
O pobre rapaz aproxima-se trêmulo, tirando o chapéu de palha.
RAPAZ: Meus cumprimentos, seu Durval... Eu venho respeitosamente pleitear a mão de sua digna filha, a senhorita Catarina...
Durval mede o infeliz de cima a baixo com um olhar fuzilante.
DURVAL: A resposta é um rotundo e sonoro NÃO! Fora daqui, abelhudo!
CATARINA: Pai, pelo amor de Deus, o senhor vai me matar de desgosto!
Durval, num ímpeto de fúria patriarcal, agarra o pretendente pelo colarinho e o empurra escada abaixo rumo à saída.
CATARINA: PAPAI, NÃO FAÇA ISSO!
Corta bruscamente para o curral e o chiqueiro nos fundos da casa. Um baque abafado ecoa na lama. O prete-
ndente aterrissa de costas dentro do chiqueiro, sob os protestos enfureci-
dos dos porcos.
Catarina enterra o rosto entre as mãos, gemendo de desespero.
CATARINA: Eu não acredito numa des-
graça dessas! A minha vida sentimen-
tal é um verdadeiro cemitério de esperanças!
Carmelita aproxima-se, suspirando fundo e abanando o avental.
CARMELITA: Paciência, minha filha... Quem sabe um dia seu pai toma juízo na moleira.
CATARINA: Espero sinceramente que seja antes de eu estampar os meus vinte anos encalhada neste cafundó!
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago | [YT] | 6
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DOIS AMORES • Capítulo 09
escrita e criada por:
CALEBE TEIXEIRA
supervisão de:
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
Abertura: https://youtu.be/MOHUTX8M590?si=j6K82...
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CENA 01-MANSÃO/SALA DE ESTAR E QUARTO DE FELIPE-NOITE
A porta principal da mansão abre-se com um estrondo violento que ecoa pelo hall. Felipe entra a passos largos, o chapéu jogado de qualquer maneira sobre a poltrona, o terno amarrotado e a fisionomia retorcida por uma fúria cega. Seus pais, Dona Cecília e o Coronel Bernardo, que conversavam tranquilamente junto à lareira, sobressaltam-se com a barulheira e correm ao seu encontro.
CECÍLIA: Meu Deus do céu, Felipe! Que maneiras são essas? Chegar a esta hora estourando as portas como um desalmado... O que foi que aconteceu, meu filho?
BERNARDO: Contenha esse ímpeto, rapaz! Fale com decência à sua mãe! O que significa essa cara de quem vai chutar o mundo?
Felipe estanca no meio da sala, fuzilando os pais com o olhar, o peito arfando de puro ódio contido.
FELIPE (Com voz áspera e cortante): Não venham com perguntas tolas! Não me aborreçam mais do que já estou!
CECÍLIA (Aproximando-se, aflita): Mas sou sua mãe, Felipe! Viemos apenas...
FELIPE (Gritando, perdendo o resto de paciência): Pois fiquem no seu canto! Não quero palpite, não quero conselho e, acima de tudo, não quero que me venham com piedade barata! Cuidem da vossa vida e deixem-me em paz!
BERNARDO (Dando um passo à frente, indignado): Ora, seu insolente!
Esqueceu-se debaixo de qual teto está pisando e a quem deve respeito?! Não admito que...
Felipe vira-lhes as costas de forma animalesca, sem sequer deixar o pai terminar a frase, e dispara escada acima pisando duro nos degraus de madeira.
CECÍLIA (Com os olhos marejados, levando as mãos ao peito): Santo Deus... Onde foi que erramos na criação deste rapaz? Ele está possuído pelo demônio!
Instrumental On:https://youtu.be/EWWRF2r0Amg?is=3E1r1...
Corta bruscamente para o interior do quarto de Felipe. Felipe entra batendo a porta com força monumental, tran-
cando-a em seguida com uma volta seca na chave. Ele caminha direto até a escrivaninha, arranca o paletó e o joga no chão, fitando o próprio reflexo no espelho escuro do armário. O rosto está desfigurado pelo rancor.
FELIPE (Entre dentes,com um ódio que transborda): Aquele maldito atorzinho de meia-pataca... Aquele farsante de quinta categoria...
Ele aperta os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficam brancos. Respira fundo, a fúria dando lugar a uma determinação fria e doentia.
FELIPE: Pensou que podia me humilhar em praça pública, debaixo do nariz de todo mundo? Vai pagar caro... Vai ter exatamente o que merece, da pior maneira possível.
Felipe caminha lentamente até a jane-
la, abrindo as persianas para encarar a noite escura lá fora, enquanto estampa um sorriso torcido e possessivo.
FELIPE: E quanto àquela caboclinha ingrata... Pode espernear o quanto quiser. Rosinha vai ser minha... Única e exclusivamente minha. E de mais ninguém neste mundo.
CORTE SECO.
CENA 02-CATIVEIRO-NOITE
A porta abre-se lentamente. Francisco, sentado no canto do cômodo, ergue os olhos. Uma figura entra. A luz do corredor ilumina apenas parte do rosto.
FRANCISCO: Quem está aí?
A pessoa fecha a porta. Francisco levanta-se com esforço.
FRANCISCO: Romeu?
Silêncio. A figura dá mais alguns passos. É Filomena. Francisco recua.
FRANCISCO: Vossa Senhoria... Quer dizer, você.
Filomena coloca uma vela sobre uma pequena mesa. A chama ilumina seu rosto.
FILOMENA: Boa noite, seu Francisco.
FRANCISCO: O que pretende com esta infâmia?
FILOMENA: Apenas conversar, meu caro.
FRANCISCO: Depois de me manter encarcerado nesta pocilga?
FILOMENA: Eu não chamaria de cárcere...
Ela olha ao redor, com um sorriso irônico.
FILOMENA: Eu diria... um retiro de proteção.
Francisco ri, incrédulo.
FRANCISCO: Perdeu o juízo por completo!
Filomena aproxima-se lentamente, fitando-o nos olhos.
FILOMENA: Sabe qual é a virtude mais fascinante do medo, seu Francisco?
Francisco permanece em silêncio, cerrando os punhos.
FILOMENA: É que ele obriga o homem a confessar aquilo que jamais diria em circunstâncias normais.
Ela estende a vela diante dele.
FILOMENA: E eu preciso que me diga apenas uma verdade.
FRANCISCO: Qual?
FILOMENA: Que a menina Rosinha não é sua filha de sangue.
Francisco encara Filomena com hostilidade.
FRANCISCO: Jamais! Prefiro a morte.
Instrumental On:https://youtu.be/qd7KH6FHyBw?is=4TIgl...
O sorriso de Filomena desaparece instantaneamente.
FILOMENA: Pense com mais carinho. A noite é longa.
FRANCISCO: Passei anos da minha vida resguardando aquela criatura inocente. Não hei de abandoná-la agora.
Filomena apaga a chama da vela com os dedos protegidos pelo tecido do vestido. O quarto mergulha em densa escuridão.
FILOMENA: Sendo assim, teremos de aguardar.
Ela retira-se. A pesada porta fecha-se com um baque seco. Francisco permanece sozinho na penumbra. Do lado de fora, Filomena detém-se imóvel no corredor.
FILOMENA: Vejamos agora quem há de ceder primeiro.
Instrumental off.
No dia seguinte....
CENA 03-MANSÃO/ESCRITÓRIO-
MANHÃ
Adriana está diante de Filomena, a respiração alterada.
ADRIANA: Onde está o Francisco? Já basta desta farsa!
FILOMENA: Torno a repetir: desconhe-
ço o paradeiro dele.
ADRIANA: E esta fotografia que caiu de suas mãos? O que significa?
Filomena olha fixamente para os dedos de Adriana.
FILOMENA: Não significa absolutam-
ente nada. Uma velha recordação sem importância.
ADRIANA: Se é tão insignificante, por que razão tentava ocultá-la a todo custo?
Filomena dá um passo à frente para tomar o retrato. Adriana recua prontamente.
ADRIANA: Afaste-se!
FILOMENA: Entregue-me isso imedia-
tamente.
ADRIANA: Não o farei.
FILOMENA: Essa fotografia não lhe pertence, menina.
ADRIANA: Talvez seja precisamente por isso que a senhora tanto se espan-
ta em vê-la em meu poder.
Filomena emudece, o semblante enrijecido.
ADRIANA: A senhora sabe muito bem quem são estas crianças, não sabe?
FILOMENA: Sei.
Adriana congela, o fôlego preso na garganta.
ADRIANA: Então fale! Quem são elas?
FILOMENA: Não.
ADRIANA: Por quê?!
Filomena aproxima-se com passos felinos.
FILOMENA: Porque as grandes revela-
ções desta vida têm sempre um preço muito alto, minha cara.
Adriana a encara com altivez.
ADRIANA: E eu estou disposta a pagar o que for preciso.
CENA 04-SALA DA MANSÃO/ CHEGADA DE ROSINHA-MANHÃ
Rosinha atravessa a porta da sala afobada.
ROSINHA: Adriana!
As duas voltam-se rapidamente.
ROSINHA: Conseguiu averiguar alguma pista?
Adriana desvia o olhar para Filomena, que permanece observando a cena de braços cruzados.
ADRIANA: Descobri que temos razões de sobra para desconfiar desta mulher.
Rosinha direciona a Filomena um olhar severo.
ROSINHA: Onde está o Francisco? Onde está o meu pai?
Filomena sobressalta-se ligeiramente com a palavra, erguendo as sobrancelhas.
FILOMENA: Seu... pai?
Rosinha percebe a hesitação e firma a voz.
ROSINHA: Sim, meu pai!
FILOMENA: Ora, menina... Você sequer sabe quem gerou o seu sangue.
ROSINHA: Mas a senhora sabe, não é verdade?
Silêncio tenso no recinto.
ROSINHA: Responda! Sabe ou não sabe?
Filomena esboça um sorriso enigmático.
FILOMENA: Talvez devesse indagar a si mesma por qual motivo tanta gente empenhou-se em sepultar este segre-
do durante tantos anos.
Rosinha sente o golpe, os olhos marejados.
ADRIANA: Não dê ouvidos às artimanhas dela, Rosinha!
FILOMENA: Apenas digo o que é límpido como a luz do dia.
ROSINHA: Então desembrude a ver-
dade de uma vez por todas!
Filomena aproxima-se com frieza.
FILOMENA: Ainda não chegou o momento oportuno.
Ela vira as costas e retira-se soberba. Rosinha volta-se para Adriana, a voz trêmula.
ROSINHA: Ela sabe de tudo... Ela sabe!
ADRIANA: O meu coração diz o mesmo.
CENA 05-CONFEITARIA DOIS AMORES-TARDE
Trilha Sonora On:https://youtu.be/ZH74RW1pTm8?is=pkQw3...
O estabelecimento está de bom movimento após o alvoroço do dia anterior.
Marocas ajeita as tortas vitrine aden-
tro. Kassandra trabalha em silêncio, distraída, levando distraidamente o dedo indicador à ponta do nariz.
MAROCAS: Estremecida por algum motivo, menina Kassandra?
KASSANDRA: Eu? Apenas um ligeiro mal-estar.
MAROCAS: Seria por conta daquela desavergonhada da Dona Filomena?
Kassandra para o que está fazendo.
KASSANDRA: Talvez...
MAROCAS: Não nutro a menor confiança naquela criatura. É serpente peçonhenta.
KASSANDRA: Nem eu, Marocas. Nem eu.
Marocas cerra os olhos, fitando-a com firmeza.
MAROCAS: Pois então conserve a distância devida, ou haverá de se queimar.
Trilha Sonora off.
Kassandra balirma a cabeça em concordância, embora transpareça profunda inquietação.
Um jovem mensageiro adentra a confeitaria apressado.
MENSAGEIRO: A senhorita Kassandra por obséquio?
KASSANDRA: Sou eu mesma. O que deseja?
Ele entrega-lhe um envelope lacrado.
KASSANDRA: Uma carta para mim?
MENSAGEIRO: Entregue por encarce-
rado enigmático. Leia com atenção.
O rapaz retira-se. Kassandra rasga o papel com os dedos trêmulos. No bilhete, lê-se apenas uma frase:
"Se desejas decifrar quem és verdad-
eiramente,comparece desacompamen-
hada à antiga estação ferroviária ao cair da tarde."
Kassandra empalidece, o papel sacudindo em suas mãos.
MAROCAS: Pelos santos do altar, o que foi isso, menina? O que diz esse papel?
Kassandra esconde rapidamente a missiva sob o avental.
KASSANDRA: Nada de relevante, Marocas. Apenas um recado banal.
MAROCAS: Banal? Ficou sem cor como um defunto!
KASSANDRA: Estou perfeitamente bem, juro-lhe.
Ela torna a coçar o nariz com o indicador, tique nervoso.
MAROCAS: Kassandra... olhe bem para mim.
KASSANDRA: Perdoe-me, preciso ausentar-me por instantes. Há negó-
cios urgentes a tratar.
💐🥥 CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER 💐🥥
1 day ago | [YT] | 5
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CENA 08-INT/APARTAMENTO DE BERNARDO-NOITE
Karina abre a porta e o ajuda a entrar, cambaleando pelo hall escuro.
BERNARDO: Devagar... Meu pai não pode me ver nesse estado... Nunca.
KARINA (firme,sustentando o peso dele): Fica calmo. Eu fico aqui até você melhorar.
Ele despenca no sofá,erguendo o olhar tonto em direção a ela.
BERNARDO: Sabe... Você é completa-
mente diferente do que eu pensava.
Karina segura o olhar dele, impene-
trável.
KARINA: E você está completamente perdido,Bernardo. (Pausa curta. O ar do ambiente muda de densidade) E pessoas perdidas costumam fazer as piores escolhas.
Bernardo sorri fraco, desafiador.
BERNARDO: Tipo o quê?
Karina se aproxima lentamente,perigo-
samente perto de seus lábios.
KARINA: Tipo confiar em quem não devia.
O clima entre os dois se transforma. É sutil,tóxico,mas magnético. Karina ergue a mão e toca levemente o rosto dele. Bernardo não recua; pelo contrá-
rio, inclina-se em direção ao toque.
E ali,sob a penumbra da sala,nasce algo errado... mas absolutamente inevitável.
CENA 09-INT/QUARTO DE CLARA- NOITE
Quarto escuro e silencioso. Clara está sentada na cama,abraçando um trave-
sseiro com força. Os olhos estão inchados de tanto chorar. Ela encara o vazio.
CLARA (Repetindo num sussurro): Não pode ser… Não pode ser…
Como se negar pudesse mudar a rea-
lidade, a mente dela é tomada por um FLASH: O carro. A placa. Miguel.
De repente, ela se levanta num ímpeto, decidida.
CLARA: Eu preciso contar… A única pessoa que pode entender. Cristian.
CENA 10-EXT/RUA-NOITE
Cristian caminha pela calçada, pensa-
tivo,de mãos nos bolsos. Ele avista Clara correndo em sua direção, visive-
lmente aflita.
CRISTIAN: Clara?
Ela para diante dele,respirando fundo, ofegante.
CLARA: Eu preciso te falar uma coisa… É sobre… o acidente.
Silêncio pesado. Cristian trava, o sem-
blante mudando na hora.
CRISTIAN: O que foi?
Clara respira fundo, criando coragem.
CLARA: Eu vi o carro. Eu vi quem fez isso.
O coração de Cristian dispara.
CRISTIAN: Quem?
Os olhos dela se enchem de lágrimas novamente.
CLARA: O Miguel… O carro dele… a placa… era a mesma…
Cristian fica completamente sem rea-
ção, estático.
CRISTIAN: Você tem certeza?
Clara balança a cabeça afirmativa-
mente.
CLARA: Eu vi. Foi ele.
O mundo parece sair do lugar ao redor deles.
CENA 11-INT/QUARTO DE MIGUEL- NOITE
Miguel está sentado na cama, num quarto mal iluminado, com as mãos na cabeça,completamente destruído.
MIGUEL (Em um sussurro carregado de culpa): Eu não sabia… Eu não sabia que era ela…
Ele passa as mãos pelo rosto, sentindo o peso da realidade. Agora a verdade tem rosto, nome e dor.
MIGUEL: Clara…
A voz falha,embargada pelo choro. Pela primeira vez,ele entende a imens-
idão e a gravidade do que aconteceu.
CENA 12-INT/DELEGACIA-NOITE
Letícia está firme e concentrada, assinando alguns documentos oficiais em sua mesa.
LETÍCIA (Determinada): O agressor será mantido preso preventivamente.
Ela fecha os olhos por um segundo e solta um longo suspiro,sentindo o alívio de um ciclo tóxico finalmente quebrado.
LETÍCIA (Para si mesma, com um leve sorriso): Obrigada.
Ela se levanta e sai da sala, sentindo-
se mais leve,embora mantendo a pos-
tura forte de sempre.
CENA 13-EXT/RUA/CALÇADA-NOITE
Enquanto caminha,Letícia avista Mariana encostada, esperando-a.
LETÍCIA: A gente precisa conversar.
Mariana cruza os braços, séria.
MARIANA: Eu já estava esperando por isso.
LETÍCIA: Você viu alguma coisa no dia?
MARIANA: Mais do que eu falei antes.
(Silêncio entre as duas) Tinha um carro.
Letícia trava, atenta.
LETÍCIA: Que carro?
MARIANA: Um carro caro. Escuro. Em alta velocidade. E alguém muito impor-
tante dentro.
Letícia absorve a informação, o cére-
bro conectando os pontos.
LETÍCIA: Isso muda tudo.
Mariana sorri de canto, com um brilho de desafio nos olhos.
MARIANA: Eu te disse que esse caso era muito maior do que parecia.
CENA 14-INT/HOSPITAL/CORREDOR- NOITE
Marcelo se aproxima rapidamente de Letícia enquanto ela caminha pelo cor-
redor movimentado.
MARCELO: Letícia…
Ela se vira, surpresa.
LETÍCIA: Eu preciso falar com você. É sobre o caso?
Marcelo hesita por um instante,olhan-
do nos olhos dela.
MARCELO: Não só isso. (Silêncio. Ele respira fundo) Eu admiro você. Sua força… sua coragem…
Ele dá um passo à frente,aproximando
-se um pouco mais.
MARCELO: Eu não consigo parar de pensar em você.
Letícia recua levemente,surpresa e desconcertada.
LETÍCIA: Doutor…
MARCELO: Marcelo. Eu sei que não é o momento perfeito…
LETÍCIA: Não é.
Ela responde de forma direta, mas sem agressividade. Marcelo abre um sorriso compreensivo.
MARCELO: Mesmo assim… eu precisa-
va dizer.
Letícia respira fundo,sentindo-se con-
fusa. Pela primeira vez em muito tem-
po,alguém a olha com cuidado e vul-
nerabilidade.
CENA 15-INT/BAR-NOITE
Luz baixa,som abafado. Balcão repleto de copos vazios. Bernardo bebe sem parar, completamente fora de controle.
BERNARDO (Gritando para o barten-
der): Mais uma!
A voz já falha e arrastada. Ele ri sozi-
nho, amargurado.
BERNARDO: Nada importa…
Ele cambaleia ao tentar se levantar e quase cai. Antes que atinja o chão, Karina aparece. Ela o observa com um olhar clínico, analítico.
KARINA: Você está se destruindo.
Bernardo solta uma risada irônica.
BERNARDO: Você não faz ideia…
Karina dá um passo à frente.
KARINA: Eu faço sim. Eu conheço a dor.
Bernardo a encara. Pela primeira vez, sente que não está sendo julgado.
BERNARDO (Quase implorando): Me tira daqui…
CENA 16-INT/CASA DE BERNARDO- NOITE
Karina o ajuda a entrar, segurando-o pelo braço.
KARINA: Devagar… Calma.
Bernardo está completamente tonto e bêbado.
BERNARDO: Meu pai… ele não pode me ver assim…
Karina compreende a situação na hora.
KARINA: Então eu fico até você melhorar.
Ele se senta pesadamente no sofá e a encara com intensidade.
BERNARDO: Você é diferente…
Karina sustenta o olhar dele,sem desviar.
KARINA: E você está completamente perdido. Pessoas perdidas fazem coi-
sas perigosas.
Bernardo dá um sorriso fraco e desa-
fiador.
BERNARDO: Tipo o quê?
Karina se aproxima lentamente,perigo-
samente perto.
KARINA: Tipo confiar em quem não devia.
O clima muda no ambiente. É sutil, mas palpável. Karina levanta a mão e toca levemente o rosto dele. Bernardo não recua; pelo contrário, inclina-se em direção ao toque. E ali, nasce algo errado… mas inevitável.
FIM DO CAPÍTULO
1 day ago | [YT] | 17
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CONFLITO • Capítulo 20
escrita e criada por:
JOÃO GABRIEL FERNANDES
Supervisão de:
EDGAR OLIVEIRA
VANESSA COUTO
direção geral:
DIOGO ITAMAR
abertura: https://youtu.be/5ZqTP2gLy28?is=FlRUn...
⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️⚖️
CENA 01-INT/QUARTO DE CLARA- NOITE
Quarto escuro. Silencioso. Clara está sentada na cama,abraçando um trave-
sseiro. Os olhos vermelhos e inchados denunciam o choro recente.
CLARA (voz baixa,quase inaudível):
Não pode ser... Não pode ser... Como se negar o fato pudesse, de alguma forma, reescrever a realidade.
FLASHBACK-MENTE DE CLARA (RÁPIDO)
• O farol do carro cortando a escuridão.
• Os números da placa gravados no asfalto.
• O rosto de Miguel.
• Clara levanta de supetão, a respiração curta.
CLARA: Eu preciso contar... A única pessoa que pode entender isso. O Cristian.
CENA 02-EXT/RUA-NOITE
Cristian caminha de um lado para o outro,pensativo,as mãos nos bolsos do casaco. De repente,avista Clara correndo em sua direção.
CRISTIAN: Clara?
Ela para diante dele,ofegante, as lágrimas ameaçando transbordar de novo.
CLARA: Cristian... Eu preciso te falar uma coisa muito séria. (A voz dela treme violentamente) É sobre... o acidente.
Cristian trava na hora. O ar parece sumir de seus pulmões.
CRISTIAN: O que foi? O que aconteceu?
Clara respira fundo, tentando juntar os cacos da própria coragem.
CLARA: Eu vi o carro. Eu vi quem fez aquilo.
O coração de Cristian dispara, ecoando em seus ouvidos.
CRISTIAN: Quem? Quem foi, Clara?
Os olhos dela se enchem d'água,a ver-
dade rasgando sua garganta.
CLARA: O Miguel... O carro dele... A placa... Era exatamente a mesma.
Cristian recua um passo, completame-
nte atônito, sem reação.
CRISTIAN: Você tem certeza absoluta disso?
Clara balança a cabeça afirmativame-
nte, o queixo trêmulo.
CLARA: Eu vi, Cristian. Foi ele. O mun-
do, ao redor deles, parece desabar e mudar de lugar.
CENA 03-INT/QUARTO DE MIGUEL- NOITE
Miguel está sentado na beira da cama, as mãos cobrindo o rosto,totalmente destruído pela própria consciência.
MIGUEL: Eu não sabia... Meu Deus, eu juro que não sabia que era ela... (A verdade fria e nua agora tem um rosto, um nome, uma dor insuportável). Clara...
A voz falha, quebrando-se no ar. Pela primeira vez na vida, ele compreende o tamanho catastrófico do que fez.
CENA 04-INT/DELEGACIA-DIA
Letícia está firme,impecável em sua postura,assinando os últimos papéis sobre a mesa.
LETÍCIA: O agressor será mantido preso preventivamente. Sem exceções.
(Ela fecha os olhos por um segundo, soltando um longo suspiro. O peso de um ciclo tóxico finalmente quebrado).
(olhando para o policial) Obrigada.
Ela vira as costas e sai da sala. Mais leve,mas com a postura de quem nun-
ca mais abaixará a guarda.
CENA 05-EXT/CALÇADA DA CIDADE- DIA
Caminhando pela rua,Letícia avista Mariana encostada na mureta, cruza-
ndo os braços com um sorriso irônico.
LETÍCIA: A gente precisa conversar, Mariana.
MARIANA: Eu já tava esperando por isso. O que foi?
LETÍCIA: Você viu alguma coisa suspei-
ta no dia do atropelamento?
Mariana hesita, avaliando a policial.
MARIANA: Mais do que eu falei no de-
poimento inicial (Silêncio breve entre as duas) Tinha um carro. Um veículo muito específico.
Letícia se sobressalta,os olhos fixos na testemunha.
LETÍCIA: Que carro?
MARIANA: Um carro de luxo. Escuro, vidros fumês,em alta velocidade... E, pelo porte, tinha alguém muito impor-
tante lá dentro.
Letícia absorve a informação, o cére-
bro processando as conexões.
LETÍCIA: Isso muda o rumo de tudo.
Mariana sorri de leve, com um brilho desafiador no olhar.
MARIANA: Eu te disse que esse caso era muito maior do que parecia.
CENA 06-INT/CORREDOR DO HOS-
PITAL-DIA
Marcelo caminha apressado pelo corr-
edor branco até avistar Letícia. Ele ac-
elera o passo e a intercepta.
MARCELO: Letícia... Espera.
Ela freia o passo e se vira, séria.
LETÍCIA: Se for sobre o caso do hospi-
tal, eu já adiantei os relatórios.
Marcelo hesita,engolindo em seco antes de falar.
MARCELO: Não. Não é sobre o caso.
(Silêncio pesado no corredor estéril(
Eu admiro muito você,Letícia. Sua força,sua coragem diante de tudo...
(Ele se aproxima um pouco mais, inva-
dindo sutilmente o espaço pessoal dela) Eu simplesmente não consigo parar de pensar em você.
Letícia recua levemente,pega comple-
tamente de surpresa.
LETÍCIA: Doutor... Por favor.
MARCELO: Me chame de Marcelo. Olha,eu sei que o momento é péssi-
mo...
LETÍCIA: Não é péssimo. É impossível.
A resposta é direta,firme,mas sem agressividade desnecessária. Marcelo sorri de canto,derrotado e fascinado ao mesmo tempo.
MARCELO: Mesmo assim... eu precisa-
va que você soubesse.
Letícia desvia o olhar,respirando fundo, visivelmente confusa. Porque,pela primeira vez em muito tempo,alguém a está olhando com real cuidado.
CENA 07-INT/BAR-NOITE
Luz baixa, ambiente abafado e cheiro de álcool barato. Copos vazios se acumulam na mesa enquanto Bernardo bebe de forma compulsiva,sem controle.
BERNARDO (gritando para o barten-
der): Mais uma! Vai! (A voz já arrastada denuncia o estado de embriaguez. Ele ri sozinho de uma piada que só existe em sua mente corrompida) Nada imp-
orta mesmo... Nada...
Ele cambaleia na banqueta,quase perdendo o equilíbrio. É quando uma sombra se projeta à sua frente.
Karina surge de braços cruzados. Ela o observa com frieza, analisando cada detalhe da ruína dele.
KARINA: Você está se destruindo por completo, sabia?
Bernardo ergue o rosto,rindo de forma debochada.
BERNARDO: Você não faz a menor ideia do que está falando...
Karina dá um passo à frente,colando
-se a ele.
KARINA: Eu faço ideia exata. Eu conhe-
ço a dor muito bem.
Bernardo a encara. Pela primeira vez na noite, há alguém ali que não o está julgando.
BERNARDO (com voz de choro, quase implorando): Me tira daqui... Por favor.
CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER
1 day ago (edited) | [YT] | 12
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CENA 08-MERCADO MUNICIPAL/ STAND DE NAIR/INT-DIA
O mercado está em pleno movimento. Nair organiza temperos em sua banca enquanto observa a barraca de Carmem. Estranha a ausência da amiga. Jurema chega carregando uma sacola e também olha para o espaço.
JUREMA: Carmem ainda não chegou?
NAIR: Nem deu notícia.
JUREMA: Aconteceu alguma coisa.
NAIR: Carmem pode estar com febre, dor,quebrada no meio. Ela vem trabalhar. Se não veio, é porque a doença é outra.
JUREMA (Entende a insinuação): Bernardo? Aquele menino sempre teve o nariz empinado. Desde pequeno.
NAIR: Também não exagera, Jurema. Pequeno ele era uma graça.
JUREMA: Era uma graça porque ficava quieto fazendo tarefa atrás da banca. Cresceu,começou a usar gravata e parece que criou alergia da gente.
NAIR: A Lalá é tão diferente. Fez faculdade,mas voltou querendo abrir restaurante aqui dentro. Bernardo fez faculdade e começou a atravessar a rua pra não passar nem na porta.
Tico, trabalhando perto delas, escuta.
TICO: Dona Nair,também não é assim. O Bernardo trabalha longe.
JUREMA: Virou advogado do advogado,é Tico?! Tá defendendo porque quer agradar a irmã dele,que aqui todo mundo sabe,que tu arrasta um bonde inteiro por causa da Lalá.
TICO: Não tá mais aqui quem falou! Fui!
Tico sai. Jurema continua o assunto.
JUREMA: Carmem deu tudo pra esses filhos. Até o que não tinha. Esse Bernardo ainda vai trazer muita tristeza pra ela.
Nair olha a barraca vazia,suspira.
NAIR: Também acho,Jurema... Também acho.
As duas olhando a banca de Carmem sem a dona ali.
CENA 09-MERCADO MUNICIPAL/ FRENTE/EXT-DIA
Trilha Sonora On:https://youtu.be/eWzZC410Ks4?is=M59iO...
Movimentação intensa diante do Mercadão. Carros,motos,turistas, entregadores e comerciantes disputam espaço. Lalá sai por uma das entradas carregando uma caixa grande. Dentro algumas peças de louça e um letreiro decorativo. Tenta equilibrar tudo enquanto atravessa. Um conversível surge rápido demais na curva. Buzina. Lalá se assusta. O carro freia bruscamente a poucos centímetros dela. A caixa escapa de suas mãos. As louças se quebram,o letreiro cai no chão e parte no meio. Lalá olha para o estrago,com olhos arregalados. Depois,lentamente para o motorista. Ao volante,está GAEL,óculos escuros, bonito e bem vestido. Eles se veem pela primeira vez.
LALÁ: Você tá maluco?!
GAEL: Eu freei.
LALÁ: Nossa,parabéns! Quer um prêmio?
Ela se abaixa para recolher os restos das coisas. Gael sai do carro.
GAEL: Calma,eu pago o que quebrou.
Lalá ergue o letreiro partido.
LALÁ: Ah, paga?! Então ótimo. Quase me atropela,passa o cartão e segue a vida.
GAEL: Eu não quase te atropelei.
Lalá encara o carro parado praticamente sobre a faixa de pedestres.
LALÁ: Não. Eu que me joguei na frente do seu carrinho discretíssimo, porque sempre sonhei morrer embaixo de um conversível.
Gael solta uma risada involuntária.
LALÁ: Tá rindo de que,imbecil? Porque a idiota que ficou três semanas esperando isso aqui (mostra o letreiro quebrado) não tá!
Gael pega uma das partes. Lê.
GAEL: Dona da Feira. É um restaurante?
Lalá arranca o pedaço da mão dele.
LALÁ: Não interessa. Assim como não me interessa que você pague nada. Prefiro ficar no prejuízo a ficar devendo favor pra playboy metido.
GAEL (Tom): Playboy metido?
Lalá olha para o conversível,depois para a roupa dele.
LALÁ: Quer que eu faça um desenho?
Gael sorri,definitivamente interessado.
GAEL: Qual é seu nome?
LALÁ: Pra quê? Vai colocar no boletim de ocorrência?
Ela recolhe o que resta da caixa. Gael tenta ajudar,mas ela recua,entrando no mercado carregando o letreiro quebrado. Gael permanece parado. Observa ela desaparecer entre as pessoas. Um motorista buzina.
MOTORISTA: Vai ficar aí namorando, amigo?! Bora!
Gael volta para o carro,ainda olhando para a entrada do Mercado. Sorri consigo mesmo. O carro parte. Na porta do Mercadão,Lalá o vê ir embora, irritada.
LALÁ (Para si): Babaca!
CENA 10-MANSÃO ARANHA ALENCAR
/JARDIM/EXT-FIM DE TARDE
Sol se pondo. Beatriz em uma mesa próxima da piscina,debaixo de um ombrelone. Um investigador à sua frente,e sobre a mesa um envelope pardo.
INVESTIGADOR: Bernardo Lacerda, trinta anos. Advogado. Sem antecedentes,sem dívidas relevantes, boa trajetória acadêmica. Pelo que consegui levantar,profissionalmente é bastante competente.
BEATRIZ: Família?
INVESTIGADOR: O pai é falecido,Jorge Lacerda. A mãe criou os dois filhos sozinha.
Beatriz abre o envelope: Fotografias, endereços,documentos.
BEATRIZ: E o patrimônio?
INVESTIGADOR (Hesita): Não há patrimônio familiar significativo.
BEATRIZ: Como assim?
INVESTIGADOR: A residência onde vivem é modesta. A principal fonte de renda da família vem do comércio.
Beatriz continha folheando.
BEATRIZ: Sim,ele mencionou. Alimentos. Alguma importadora... Mesmo que média?
O investigador a encara.
INVESTIGADOR: Não propriamente.
Beatriz encontra uma fotografia. Carmem atrás do stand de frutas, avental na cintura,atendendo fregueses. Ela congela. Reconhece imediatamente a mulher que apareceu em sua casa.
BEATRIZ: Essa mulher...
INVESTIGADOR: Carmem Lacerda. Mãe do Bernardo.
Beatriz ergue os olhos, incrédula.
BEATRIZ: Mãe? Feirante?
INVESTIGADOR: Conhecida no Mercado Municipal como Dona da Feira. Tem uma barraca tradicional no Mercadão há mais de vinte anos.
Beatriz pega outra foto: Carmem sorridente entre caixas de frutas. Se levanta, nervosa.
BEATRIZ: Essa... Coisinha, teve aqui ontem. Mãe desse carrapato... E ele enganando todo mundo. (Se vira nervosa) Verme mentiroso!
Beatriz encara novamente a foto em suas mãos. Amassa com extrema raiva, se sentindo enganada.
CENA 11-MANSÃO ARANHA ALENCAR/ESCRITÓRIO-FIM DE TARDE
André trabalha diante do notebook quando a porta se abre abruptamente. Beatriz entra com o dossiê em mãos. Joga sobre a mesa,completamente fora de si.
BEATRIZ: Bernardo Lacerda,o grande advogado promissor que nossa filha resolveu colocar dentro desta casa.
André recosta-se na cadeira.
ANDRÉ: O que tem ele?
Beatriz abre o dossiê e coloca diante do marido a fotografia de Carmem no mercado.
BEATRIZ: Filho da feirante.
André olha a fotografia, sem reação.
BEATRIZ: Feirante,André! Aquela história de comércio de alimentos... A mulher tem uma barraca no Mercado Municipal!
ANDRÉ: E?
BEATRIZ: “E”?
ANDRÉ: Beatriz,o rapaz trabalha, estudou, é advogado. Não entendi o escândalo.
BEATRIZ: O escândalo é ele ter mentido dentro da nossa casa! Aquela mulher esteve no nosso portão ontem e ele disse que era funcionária da própria mãe.
ANDRÉ: Então ele tem vergonha dela.
BEATRIZ: O que torna tudo mais patético. Eu sabia que havia alguma coisa errada. Um rapaz sem patrimônio, sem família conhecida, aparece na vida da Sofia e em poucos meses já está sentado à nossa mesa.
ANDRÉ: Você está chamando Bernardo de golpista?
BEATRIZ: Estou chamando de pé-rapado golpista. E amanhã mesmo eu vou exigir que Sofia termine com ele.
ANDRÉ: Não vai.
BEATRIZ (Encara): Como é?
André fecha o notebook.
ANDRÉ: Você não vai exigir absolutamente nada. Pelo contrário. Seja simpática,convide o rapaz mais vezes. Faça Bernardo se sentir parte da família.
Beatriz encara o marido como se não o reconhecesse.
BEATRIZ: Você enlouqueceu?
ANDRÉ (Levantando): Heitor contratou uma auditoria externa. Meu irmão decidiu que existem números estranhos na empresa. Custos elevados, fornecedores suspeitos, alguns pagamentos que ele não consegue explicar... E se ele procurar direito,vai encontrar o que não deve.
BEATRIZ (Desconcertada): E o que isso tem a ver com esse projeto de golpista?
ANDRÉ: Tudo. Heitor não está procurando o desvio, está atrás de quem desviou.
André passa a mão pelo envelope com o dossiê sobre Bernardo. Beatriz o encara, entendendo.
BEATRIZ: Mas não faz sentido. Esse rapaz nem trabalha na Aranha Alencar.
ANDRÉ: Ainda não. (Pega uma foto do rapaz) Advogado societário... Ambicioso. Namora a filha do presidente. De repente recebe uma oportunidade dentro da companhia. Confiável,com acesso,alguns documentos assinados por ele...
BEATRIZ: Você quer colocar aquele rapaz no meio disso?
ANDRÉ: Eu quero resolver dois problemas de uma vez. (Aproxima-se) Você acha Bernardo inadequado para nossa filha?
BEATRIZ: Completamente.
ANDRÉ: Quando isso terminar, quando Heitor tiver o ladrão que está procurando atrás das grades,Sofia também vai achar.
André sorri para Beatriz e fixa o olhar na foto de Bernardo. Close em André.
EFEITO FINAL: Frutas variadas caem sobre a imagem,a cobrindo por completo. Uma porta metálica desce, encerrando o capítulo.
FIM DO CAPÍTULO
2 days ago | [YT] | 12
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DONA DA FEIRA • Capítulo 02
Escrita por:
ERICK PAVANELLI
Livremente inspirada na peça “Dona Xepa” de: PEDRO BLOCH
Direção Geral: DIOGO ITAMAR
Abertura:https://youtu.be/7K4NfXEKqMA?si=LNPhQ...
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CENA 01-MANSÃO ARANHA ALENCAR
/FRENTE/EXT-NOITE
Carmem sustenta o olhar de Beatriz diante do portão.
BEATRIZ: Quem é você, afinal?
Carmem olha para a carteira de Bernardo, depois a encara.
CARMEM: Só vim entregar isso.
Estende a carteira. Beatriz recebe, estranhando.
BEATRIZ: É do Bernardo? E você o conhece de onde?
CARMEM (Percebe o tom): Entrega pra ele que ele vai saber.
Antes que Beatriz pergunte mais, Carmem se vira.
BEATRIZ: Espera. Não quer deixar seu nome?
Carmem olha por cima do ombro.
CARMEM: Não precisa.
Sai. Beatriz acompanha Carmem com os olhos, intrigada.
CENA 02-MANSÃO ARANHA ALENCAR
/SALA/INT-NOITE
Bernardo conversa animadamente com André e Sofia,quando Beatriz retorna com a carteira nas mãos. Bernardo reconhece imediatamente.
BERNARDO: Minha carteira.
BEATRIZ (Entregando): Uma mulher trouxe pra você.
Bernardo fica tenso.
SOFIA: Quem era, mãe?
BEATRIZ: Não disse o nome. Uma mulher meio... Espalhafatosa. Sem classe... Barraqueira até. Quase discutiu com o funcionário porque ele não deixou que entrasse.
BERNARDO (Forçando um sorriso): Deve ser alguém que trabalha com a minha mãe.
BEATRIZ: Ela trabalha com sua mãe?
BERNARDO: Provavelmente. Minha mãe deve ter encontrado a carteira e pedido pra ela trazer.
Sofia aceita a explicação.
SOFIA: Ainda bem. Você ia perceber só amanhã. Se precisasse dos seus documentos, não ia ter.
BEATRIZ: Curioso. Ela não parecia funcionária de ninguém... Um jeito tão mandão.
BERNARDO: A senhora não conhece minha mãe. Trata todo mundo como família, e essa gente fica folgada mesmo. Vamos esquecer isso. E obrigado, dona Beatriz.
Bernardo sorri, guarda a carteira no bolso rapidamente. André retoma a conversa.
ANDRÉ: Pronto. Mistério resolvido. Vamos beber um cafezinho?
Bernardo aceita, ainda tenso. Sofia o abraça. Beatriz analisa o nervosismo do rapaz, não acreditando inteiramente na história.
CENA 03-RUAS DE SÃO PAULO/ ÔNIBUS/INT-NOITE
Um ônibus atravessa as ruas iluminadas de São Paulo. Poucos passageiros. Carmem sentada junto à janela, observa a cidade. Seus olhos cheios de lágrimas, tenta conter, mas escapa, limpa rapidamente. O celular toca. Na tela o nome de LALÁ. Carmem respira fundo antes de atender.
CARMEM: Oi, filha.
LALÁ: Onde você tá? Fiquei preocupada.
CARMEM: Voltando pra casa. Fui levar a carteira do seu irmão.
LALÁ: E aí? Ele te recebeu?
Carmem olha pela janela. Breve silêncio.
CARMEM: Recebeu muito bem. (Força animação na voz) Você precisava ver a casa, Lalá. Um palácio. Os sogros dele até me chamaram pra entrar, jantar com eles... Mas eu não quis. Esnobei.
Lalá ri do outro lado.
LALÁ: Claro. A Dona da Feira não aceita qualquer convite.
Carmem fecha os olhos, segurando o choro.
CARMEM: Exatamente.
LALÁ: Vem logo. Tô te esperando. Fiz uma comidinha pra gente.
Carmem sorri em meio às lágrimas.
CARMEM: Tô chegando, meu amor.
Desliga. O sorriso desaparece. Carmem encosta a cabeça no vidro. Do lado de fora, os prédios sofisticados dão lugar aos bairros populares, enquanto o ônibus segue. Ela finalmente deixa as lágrimas correrem.
CENA 04-SÃO PAULO/EXT-DIA
Trilha Sonora On:https://youtu.be/n5wxZ_OBUXk?is=hZLw7...
A câmera roda pelas ruas de São Paulo,e a noite vai se transformando em dia novamente. O Sol nascendo entre os prédios, as avenidas ganhando a movimentação intensa dos carros e pessoas. Movimento nos principais pontos da cidade. A Ponte Estaiada ao fundo da Avenida Paulista. Os prédios espelhados da Paulista. Fachada da Aranha Alencar Engenharia.
CENA 05-ARANHA ALENCAR ENGENHARIA/ESCRITÓRIO DE HEITOR/INT-DIA
Heitor com Mauro e William, executivos da empresa. Sobre a mesa, relatórios financeiros e contratos. Heitor aponta alguns números.
HEITOR: Esses custos aumentaram sem nenhuma justificativa convincente. E não foi em um projeto, foram vários.
WILLIAM: André disse que é reflexo do mercado.
HEITOR: Meu irmão pode dizer o que quiser, até que o Papa é santo. Os números continuam não fechando.
Mauro permanece atento.
HEITOR: Por isso encomendei uma auditoria terceirizada. Quero uma equipe que não responda nem a mim, nem ao André. Começam esta semana. Contratos, pagamentos, fornecedores, tudo.
Mauro troca um rápido olhar com William.
CORTE: ESCRITÓRIO DE ANDRÉ
Mauro está diante de André, sentado em sua mesa.
MAURO: Ele quer abrir todas as contas. Parece que começam esta semana mesmo. Se eles cruzarem com os pagamentos...
ANDRÉ: Eu sei onde eles vão chegar.
André levanta,caminha até a janela, visivelmente tenso.
MAURO: Precisamos ganhar tempo, André.
ANDRÉ: Tempo não vai resolver. A gente precisa dar pra essa auditoria uma resposta.
MAURO: Que resposta?
André o encarando,pensativo, procurando uma saída.
CENA 06-AVENIDA PAULISTA/CAFÉ/ INT-DIA
Sofia está sentada diante de Rafael, que mexe no celular enquanto termina uma bebida.
SOFIA: Você tá me ouvindo?
RAFAEL: Perfeitamente.
SOFIA: O que eu acabei de falar?
RAFAEL: Alguma coisa sobre seu pai, seu namorado ou trabalho. Se você me der mais cinco segundos,eu arrisco a ordem.
SOFIA (Ri): Insuportável.
RAFAEL: Desculpa. Tô editando umas coisas que gravei ontem. Produzindo conteúdo,amiga.
Sofia estende a mão.
SOFIA: Deixa eu ver.
Rafael entrega o celular. Na tela, imagens do Mercado Municipal: corredores movimentados,bancas coloridas,comerciantes chamando fregueses.
SOFIA: Você foi ao Mercadão?
RAFAEL: Fui. Tinha anos que não entrava lá. É ótimo pra gravar.
Ele desliza para outro vídeo. Surge Carmem diante da câmera. Sofia ri da imagem da mulher no vídeo.
SOFIA: Eu adorei essa mulher. Quem é ela?
RAFAEL: Carmem. Todo mundo chama ela de Dona da Feira. Ela manda naquele pedaço inteiro. (Pega o celular) Quero postar. Tem gente que nasce pra câmera sem saber.
SOFIA (Encantada): Ela é ótima. Tem uma coisa... Verdadeira. Eu queria ter essa espontaneidade. Se colocam uma câmera na minha frente,
imediatamente começo a pensar se tô sentada direito, falando direito...
RAFAEL: Você foi criada pela Beatriz. Deve ter aprendido etiqueta antes de aprender a andar.
Sofia volta a olhar a imagem congelada de Carmem no celular.
SOFIA: Dona da Feira...
RAFAEL: Qualquer dia te levo lá.
SOFIA (Sorri animada): Eu topo. Gostei dela.
O celular de Sofia vibra. Mensagem de Bernardo. Ela sorri ao ler, Rafael percebe.
RAFAEL: Falando em gente que você gosta...
Sofia responde a mensagem imediatamente.
CENA 07-CASA DE CARMEM/COZINHA/INT-DIA
Bernardo entra arrumado para o trabalho, mexendo no celular. Para ao ver Carmem sentada, com o café intacto.
BERNARDO: Não foi ao mercado? Tá doente?
CARMEM: Não. (Encara-o) Serei direta: você tem vergonha de mim?
BERNARDO: Mãe... Que pergunta?
CARMEM: Responde. Tem vergonha de dizer que sou tua mãe? Ontem, fui entregar tua carteira na casa dos teus sogros e você me deixou plantada. Aquela mulher me olhou como se eu fosse um inseto.
BERNARDO (Vira-se, irritado): A senhora não devia ter ido lá daquele jeito. É outro ambiente, mãe.
CARMEM: E eu estrago o ambiente?
BERNARDO: Quer saber? Sim! Eu sei de tudo o que você fez, do teu sacrifício, mas eu nunca quis crescido na feira. Cheiro de peixe, pastel, gente gritando preço... Meus colegas falavam de viagens, clubes. Eu passei a vida inteira querendo sair daquilo! Qual é o crime?
CARMEM (Olhos marejados): Nenhum. Trabalhei de madrugada para você ter escolha. Só não sabia que, ao chegar lá, ia ter vergonha de quem ficou.
BERNARDO: Eu não tenho vergonha de você, mãe.
CARMEM: Tem da minha vida, dá quase na mesma. Foi aquela feira que pagou tua faculdade, teu terno, essa vida bonita que você tem hoje. Você queria sair da simplicidade, mas foi ela que abriu a porta para tudo isso. Eu nunca quis que você fosse igual a mim, mas esperava orgulho.
Carmem pega a xícara e vai para a pia. Bernardo tenta se aproximar.
BERNARDO: Mãe...
CARMEM (Seca): Vai trabalhar. Vai se atrasar.
Ela sai sem olhar para ele. Bernardo fica sozinho, pensativo, olhando para o próprio terno.
CONTINUA NO PRÓXIMO PÔSTER
2 days ago (edited) | [YT] | 15
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CENA 06-RUA DA CIDADE-MEIO-DIA
A confusão transborda para a calçada. Filomena sai cuspindo marimbondos, completamente desarrumada e imunda de creme.
FILOMENA: Eu juro que acabo com essa corja! Bando de insolentes!
Enquanto caminha pisando duro pela rua, uma senhora de respeito, que assistira a tudo da praça, interpõe-se em seu caminho.
SENHORA: Ora faça o favor, minha boa mulher!
FILOMENA (virando-se com fúria): O que foi agora, infeliz?
SENHORA: Acha bonito tratar as pes-
soas com essa soberba toda e ainda destruir o comércio alheio?
FILOMENA: Cuide da sua vida e vá cerzir suas meias, velha coscuvilheira!
A senhora fica indignada, ruborizada de raiva.
SENHORA: Ah, mas não vai ficar assim!
Ela chama outras vizinhas que estavam na praça, reunindo um pequeno grupo.
Em poucos segundos, Filomena se vê cercada.
FILOMENA: O que significa isso? Afas-
tem-se de mim.
SENHORA: Vamos dar uma boa lição de educação nessa desaforada!
As mulheres avançam,puxando-lhe a capa e repreendendo-a em coro. Filo-
mena tenta desvencilhar-se,
esbaforida.
FILOMENA: Soltem-me imediatamente! Seus monstros!
SENHORA: Hoje a senhora aprende a respeitar o nosso bairro!
Atracada e puxada para longe da praça
,Filomena consegue enfim escapar correndo,com os chapéus tortos e as roupas em farrapos. Olhando para trás, cospe marimbondos:
FILOMENA: Vocês hão de me pagar caro por isso! Todas vocês!
CENA 07-CONFEITARIA DOIS AMORES -TARDE
De volta ao interior da confeitaria, Kassandra espreita a porta, vendo a rival bater em retirada.
KASSANDRA: Ora, pelo visto a recep-
ção não foi do agrado dela.
Marocas começa a rir, tirando os restos de creme do avental.
MAROCAS: Menina, você viu a careta que ela fez quando levou a torta? Não há quem aguente!
Kassandra gargalha gostosamente.
KASSANDRA: Quem diria que uma singela torta de coco causaria tama-
nha arruaça…
Por hábito,ela leva o dedo indicador ao nariz e coça de leve. Marocas balança a cabeça, sorrindo.
MAROCAS: Ora veja, lá vem você com essa mania outra vez!
KASSANDRA (rindo): É mais forte do que eu, Dona Marocas! É meu jeitinho.
CENA 08-MANSÃO/FUNDOS-TARDE
Filomena chega aos fundos da mansão com o vestido arruinado e o rosto ver-
melho de fúria. Romeu, encostado no batente, a observa espantado.
ROMEU: Céus do meu caderno… O que aconteceu com a senhora?
FILOMENA (olhos chispando fogo): Nem ouse me fazer perguntas, Romeu.
ROMEU: Foi uma discussão?
FILOMENA: Foi uma verdadeira guerra civil!
Romeu morde os lábios para não rir da figura lamentável.
FILOMENA: Está achando graça da minha desgraça, moleque?
ROMEU: Eu? Nem por sombras, dona Filomena.
FILOMENA: Pois está com cara de quem está!
ROMEU: Talvez… um bocadinho apenas.
Filomena lança-lhe um olhar que ma-
taria um boi. Romeu pigarreia e fecha o semblante.
ROMEU: Já me calei. Perdoe-me.
Ela respira fundo, ajeitando os cabelos desgrenhados.
FILOMENA: Escute aqui, Romeu. Aquela tal de Kassandra está fazendo perguntas demais da conta.
ROMEU: Sendo assim, talvez fosse prudente desmanchar essa aliança com ela.
FILOMENA: De maneira nenhuma.
ROMEU: E por que razão?
FILOMENA: Porque tenho para mim que ela é exatamente a peça que falta-
va no meu tabuleiro.
CENA 09-MANSÃO/QUARTO DE FRANCISCO-TARDE
Mais tarde,aproveitando a penumbra, Romeu entra sorrateiramente no quar-
to onde Francisco se encontra recluso.
FRANCISCO: Graças a Deus, você voltou, Romeu.
ROMEU: Vim trazer um jarro d'água fresca para o senhor.
FRANCISCO: Escute-me bem, preciso falar com urgência.
ROMEU: Eu imagino o que seja, seu Francisco.
FRANCISCO: Você tem de me ajudar a sair deste cativeiro. Não aguento mais este quarto abafado.
Romeu olha apreensivo para a porta trancada.
ROMEU: Eu não sei se disponho de coragem para tanto… Filomena está vigilante.
FRANCISCO: Consegue sim, rapaz! Basta querer.
ROMEU: Ela anda desconfiada de tudo e de todos.
FRANCISCO: Então faça algo antes que seja tarde demais para nós dois!
Romeu coça o queixo, pensativo e determinado.
ROMEU: Sabe de uma coisa? Acho que acabo de ter um plano.
CENA 10-RUA DA CONFEITARIA-TARDE
Mais tarde, Rosinha passa novamente em frente à Confeitaria Dois Amores. Kassandra está varrendo a entrada. As duas cruzam o olhar e se reconhecem de imediato.
KASSANDRA: Ora, é você…
ROSINHA: Nós já nos vimos por estes lados, não é mesmo?
KASSANDRA: Sim, na praça.
Rosinha aproxima-se com um sorriso amigável.
ROSINHA: Sabe… eu acho isto tudo tão esquisito.
KASSANDRA: O que lhe parece esquis-
ito, menina?
ROSINHA: Não sei explicar… Mas sinto como se já a conhecesse de longa data.
Kassandra para com a vassoura e, por instinto, leva o dedo indicador ao nariz.
KASSANDRA: Ora pois… quer que eu lhe diga? Sinto exatamente a mesma coisa ao olhar para a senhorita.
Rosinha solta uma risadinha cristalina.
ROSINHA: Diga-me uma coisa… a senhorita faz sempre esse trejeito?
KASSANDRA: Que trejeito?
ROSINHA: Esse de coçar o nariz com a ponta do dedo.
Kassandra ri, envergonhada.
KASSANDRA: Ah, creio que é uma mania antiga que trago comigo.
Enquanto as duas conversam anima-
damente,do outro lado da rua, Filome-
na surge na esquina. Ao perceber a proximidade amigável entre ambas, seu semblante gela.
FILOMENA: Não… isto não pode estar acontecendo…
CENA 11-RUA DA CONFEITARIA-TARDE
Rosinha fita os olhos profundos de Kassandra.
ROSINHA: Perdoe-me a franqueza… posso fazer-lhe uma pergunta íntima?
KASSANDRA: Pois não, pergunte à vontade.
ROSINHA: A senhorita sabe quem foram seus verdadeiros pais?
Kassandra perde o sorriso e fica séria de repente.
KASSANDRA: Não… nunca soube. Fui criada sem conhecer minhas origens.
Rosinha arregala os olhos,profunda-
mente surpresa.
ROSINHA: Santo Deus… Eu tampouco sei quem são os meus.
Um silêncio carregado de significado paira entre as duas.
KASSANDRA: Talvez… seja por isso que meu coração reconheceu a senh-
orita desde o primeiro instante.
ROSINHA: Talvez seja sim…
As duas estendem as mãos e apertam-
nas com carinho. Ao longe,Filomena range os dentes de pavor.
FILOMENA: Elas estão se aproximando demais… Vão descobrir tudo!
CENA 12-MANSÃO/ESCRITÓRIO-NOITE
Já recolhida à noite,Filomena entra so-
rrateiramente em seu escritório partic-
ular na mansão. Abre a gaveta tranca-
da a chave e de lá retira a velha fotografia das duas crianças. Ela olha fixamente para a imagem.
FILOMENA: Rosinha.
Seus olhos descem para o outro bebê na foto.
FILOMENA: E Kassandra…
Filomena fecha os olhos com força, num sussurro gélido:
FILOMENA: Vocês estão chegando perto demais da verdade…
Ela torna a guardar a fotografia na gaveta. Contudo, atrás dela,uma voz firme e cortante ressoa no silêncio da sala:
ADRIANA: Perto demais de quê, Filomena.
Filomena congela instantaneamente. Com o coração aos pulos,vira-se vaga-
rosamente. Adriana está ali, parada à porta, com os braços cruzados e olhar implacável.
ADRIANA: Eu acabei de ouvir o seu cochicho.
FILOMENA (tentando disfarçar o pâ-
nico): Ora,Adriana… eu estava apenas
… a raciocinar sozinha.
ADRIANA: Não ouse mentir para mim!
Adriana dá um passo firme à frente.
ADRIANA: Responda-me sem rodeios: onde está Francisco?
Filomena engole em seco e permanece em absoluto silêncio.
ADRIANA: E por qual razão a senhora guardava com tanto zêlo uma fotogra-
fia da infância de Rosinha?
Com as mãos trêmulas,Filomena aper-
ta a gaveta contra o peito, acuada.
CORTE RÁPIDO PARA:
O cômodo escuro onde Francisco se encontra prisioneiro. Ele ouve o ranger discreto de alguém destrancando a porta pesada.
FRANCISCO: Quem está aí a esta hora?
A porta vai se abrindo lentamente, rev-
elando apenas uma silhueta na penu-
mbra. Os olhos de Francisco se abrem espantados:
FRANCISCO: Você?!
CORTE SECO.
FIM DO CAPÍTULO
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